Hungaroring: Entre o tédio e a história.

Publicado: 29/07/2010 por Vitor, o de Recife em História da F1
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Hungaroring é um daqueles circuitos que o fã da Fórmula 1 já sabe o que esperar. Corrida decidida na largada e nas estratégias de boxes, sinônimo de corridas modorrentas. Um circuito de baixa velocidade, cujo acerto dos carros se assemelha aos circuitos de rua mais travados, como Mônaco. Digamos que “pioneiro”, um “pré-Tilke”, um legítimo circuito “Mickey Mouse”, muito comum hoje em dia…

Para os pilotos, é uma pista do tipo “ame ou odeie”. Adrian Sutil, piloto da Force India, fez uma interessante descrição sobre o circuito:

Eu gosto da pista, suas muitas curvas são um verdadeiro desafio. Como pilotamos sempre com muita asa, temos muita aderência aerodinâmica, mas só no traçado ideal. O carro fica preso ao asfalto, uma sensação bem diferente das pistas de alta velocidade, onde você o sente muito pouco. Legal para os pilotos, nem tanto para os torcedores – a pista é tão estreita que prevalece um ‘proibido ultrapassar.

Chato ou não, o circuito está há mais de 20 anos no calendário e está, vejam só, garantido até 2016. Não podemos afirmar, no entanto, que todos esses anos foram marcados por corridas sonolentas, afinal, o mal afamado circuito foi palco daquela que é reconhecida por muitos como a mais bela ultrapassagem de todos os tempos: sim, aquela de Nelson Piquet sobre Ayrton Senna, em 1986.

Clique aqui e baixe a corrida completa de 1986 com imagens da Fuji TV e narração de Galvão Bueno e comentários de Reginaldo Leme.

Senha para download: Comunidade-FujiTV-Orkut

Outra passagem épica foi o único GP da Hungria disputado sob chuva, a edição de 2006, que marcou a primeira vitória de Jenson Button na categoria com a Honda. Uma corrida cheia de alternativas e surpresas.

Além de Button, outros pilotos sentiram o gosto da primeira vitória no traçado magiar: Alonso Kovalainen, e Damon Hill. Este, vencedor em 1993, fez uma das corridas mais marcantes do circuito.

Era o ano de 1997 e Hill, surpreendentemente, levou o número 1 da Williams para a TWR Arrows. A equipe, comprada em 1996 pelo ex-diretor de engenharia da Benetton Tom Walkinshaw (o “TW”), contava com os fraquíssimos motores Yamaha e  o brasileiro Pedro Paulo Diniz, um piloto com atributos ao mesmo tempo modestos e riquíssimos, se é que me entendem.

Logo na primeira prova a equipe teve um desempenho assustadoramente pífio: Hill se classificou em 20º; Diniz, em 22º. O inglês sequer conseguiu largar, enquanto o brasileiro terminou com 4 voltas atrás do líder. Ao longo da temporada, os carros da Arrows abandonaram 17 vezes. Mas a Arrows teve seus momentos de glória: o filho de Graham Hill conseguiu a proeza de colocar seu pobre equipamento em 4º em Jerez de la Frontera; a equipe somou 9 pontos, sete deles do piloto britânico; seis só com a proeza em Hungaroring.

Ninguém esperava que uma equipe que jamais havia conseguido se classificar no top 10 se classificaria em entre os 3 primeiros. Hill conseguiu, ficando atrás apenas dos postulantes ao título daquele ano, Michael Schumacher e Jacques Villeneuve. Na corrida, um desempenho mais impressionante ainda: ultrapassou os dois na largada e manteve um desempenho brilhante durante toda a prova. Com uma Arrows…

Tudo ia bem até que mais uma vez a confiabilidade do carro da Arrows mais uma vez deixava seus pilotos na mão. Com problemas de câmbio, restando apenas uma mísera volta para o final, Hill é ultrapassado pelo ex-companheiro de Williams, Villeneuve, que chegou a por as rodas traseiras do carro fora da pista para ultrapassar o inglês e conquistar a vitória do GP magiar.

Naquele 10 de agosto de 1997, Damon Hill, um piloto sempre lembrado como um campeão “sem brilho” – assim o definiu cruelmente Nik Lauda após o título de 1996 – que conseguiu um título apenas por guiar um carro “ de outro mundo”, perdeu o GP da Hungria, mas conquistou o respeito com uma atuação digna de um grande piloto.

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comentários
  1. Mari Espada disse:

    É… Esse circuito tem história!

    Mas fiquei curiosa para saber se nada mudou nessa pista…
    Não há trechos novos nesses 20 anos?

  2. Allan Wiese disse:

    Grande texto, bela história! Parabéns Vitor.

    Impressionante como Hill obteve essa vantagem com esse carro antes de ter tido o problema.

    • Vitor, o de Recife disse:

      Valeu, Allan. Hill estava imbatível nesse dia, não fosse a falta de confiabilidade da Arrows…

  3. Rodrigo Pedrosa disse:

    Promessa de corrida sonolenta, mas…

  4. Rodrigo Pedrosa disse:

    Vitor, belo texto.

  5. Will disse:

    Lindo texto! Acho que essa manobra é uma síntese do Piquet…ousado, carudo e marrento – e, extremamente rápido!

    Mas minha ultrapassagem preferida continua sendo Hakkinen a Schumacher em Spa…velocidade, ousadia e inteligência – para os grandes pilotos, o retardatário não é um problema, é uma oportunidade (alfinetada em D. Alonsiton de las Asturias).

    Vale a pena:

    Fico incontrolavelmente sorridente quando vejo esse vídeo…fantástico, ultrapassagem perfeita na pista perfeita!

    • Allan Wiese disse:

      Coisa linda!

    • Rodrigo Pedrosa disse:

      Não tem como não sorrir depois de ver uma ultrapassagem desse tipo.

    • Vitor, o de Recife disse:

      Também adoro esta ultrapassagem. E o Hakkinen sempre foi um dos meus pilotos favoritos, o finlandês era bota!!! Se o Raikkonen tivesse mais paciência com a McLaren…

    • Sirlan Pedrosa disse:

      Will,

      Essa manobra do Mika foi realmente espetacular, uma reação muito rápida e muita habilidade para segurar o carro na freada no fim da reta.

      Mas a ultrapassagem do Nelsão….ah….e história toda….o troco do Senna….duas voltas depois o Nelsão passando por fora…a lenda dele ter mandado Senna @#$#@ ….

      Eu não canso de ver essa cena na Hungria.

      Era uma época em que nossos pilotos BRIGAVAM PARA VENCER (Massa me perdoe, mas não ia perder a chance….).

      Um abraço,

      Sirlan Pedrosa

  6. Alex-Ctba disse:

    Parabéns Vítor, belos resgates do GP Hungaro. Corroboro com a sua opinião sobre a ultrapassagem mais sensacional de todos os tempos da F1. Piquet teve q mudar de categoria para poder ultrapassar o Senna: De F1 para Drift! Simplesmente Fantástico.

    Outros grandes momentos q eu tenho de memória ( não vou pesquisar ) foi a vitória do Mansell em 1989 de Ferrari, largando em 13º acho e o 2º lugar do Senna en 90, fazendo várias ultrapassagens. Para aqueles carros, essa pista funcionava bem.

    • Vitor, o de Recife disse:

      Valeu Alex. De meados de 90 ao século XXI as ultrapassagens por si só ficaram muito difíceis por causa do avanço da aerodinâmica. Se Hungaroring já era difícil de ultrapassar, ficou pior ainda.

  7. Belo texto Vitor, bem vindo a equipe do Ultrapassagem!

    Já editei o que estava errado e foi minha culpa te-los deixados passar.

    E pergunta pra galera, alguém já baixou a corrida de 86, a qualidade está boa ?

    • Vitor, o de Recife disse:

      As ordens, capitão! Vou baixar ainda, onde você conseguiu o video? Será que tem algum lugar com as temporadas completas dos passados?

      • Vitor, o de Recife disse:

        Digo, temporadas completas do passado.

      • Segredo não posso contar a fonte por enquanto, ela me pediu sigilo absoluto.

        Mas vou pingando sempre umas corridas aqui.

        Não tem todas as corridas televisionadas mas o acervo é grande, muito grande, inclusive essas últimas temporadas.

  8. Sirlan Pedrosa disse:

    Vitor,

    Você só podia ser de Recife…Muito bom o texto.

    Engraçado que nunca gostei dessa pista (gosto de circuitos rápidos), mas a GP tem a marca de ter sido realizado ainda sob a cortina de ferro, num país então comunista.

    Era como se o capitalismo representado pela faceta comercial da F1 estampada nos carros e nas placas do circuito mostrasse que aquele regime húngaro tinha os dias contados.

    Hoje isso não chama a atenção, mas à época foi um grande feito de Bernie Eclestone.

    Quanto ao Damom Hill você foi ao ponto. Ele pode não ter o brilho de uma grande estrela, mas ninguém chega ao topo do mundo se não tiver algum valor.

    Um forte abraço,

    Sirlan Pedrosa

  9. tomasf1 disse:

    Show Vitor, excelente seu texto!

  10. Dorfão disse:

    Vitor

    Eu não sei o que foi melhor neste post, se foi o texto, a escolha das lindas imagens, o capricho em colocar os videos, ou se foi o carinho ou atenção em colocar o link para baixar a épica corrida de 96.

    Show de bola!! Vlw

    Abração

    • Vitor, o de Recife disse:

      Dorfão,

      Quanto às fotos e o vídeo do GP da Hungria completo, os créditos são do Claudemir. Quanto ao resto, muito obrigado. ;)

  11. Rodrigo Kezen Leite disse:

    Gostei do texto, parabéns!!!

  12. Anselmo Coyote disse:

    Perfeito!

    Depois da corrida vou trazer aqui um texto narrando de forma magistral e bem humorada a mais bela e ousada ultrapassagem da F1, que o Jack Stewart disse que foi como “dar um looping num boeing”.

    Promessa solene do Coyote.

    Abs.

    • Alex-Ctba disse:

      Promessa é dívida. Falando nisso Coyote, hj vi uma reportagem sobre os 100 anos do Adoniram Barbosa (06/08/1910) e lembrei de vc.

      E o Arnesto hein ?

    • Dorfão disse:

      opa, estou aguardando anciosamente Coyote, abraços

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