Momentos Críticos!

Publicado: 15/08/2010 por Claudemir Freire em Artigos

Texto: Fernando Kesnault.

Dia 29 de julho de 1973, 37 anos atrás, eu, um jovem a entrar na fase da adolescência, cabelos longos – a mostrar rebeldia??, não, era a moda da época – ávido por corridas e esportes em geral, esperava ansioso a largada de mais uma prova de f-1 à frente da televisão, direto de Zandvoort, Holanda. Mais uma disputa palmo a palmo era o “vesgo” Stewart e o “rato” Emerson pela liderança do Mundial. Lá atrás na grelha (grid), vários novos talentos a despontar para o desporto e entre eles o inglês, Roger Williamson a correr pela equipe STP-March de…Max Mosley. .Na oitava volta, Roger estava na 13ª posição e David Purley – outro promissor piloto da ilha – em 14ª posição, um pneu furado na saída da curva Scheivlak,  faz a March perder a direção e vai de encontro ao “guard-hill”, bate, vira e se arrasta de pernas pro ar pela cerca de proteção por mais de 200 metros, a atritar o tanque de combustível no asfalto o que provoca um incêndio, o carro virado ao contrário, ao parar, o Roger não conseguia sair “de baixo” por estar preso. Purley ao ver o acidente à sua frente, pára e tenta ajudar o amigo, a empurrar sozinho o carro no meio das chamas. Os comissários de pista e bombeiros assistiam passivos, a tudo e conta o próprio Purley que Roger dizia: “Pelo amor de Deus David, me tire daqui”.

Ele fazia o possível e impossível, enquanto isso, eu e milhões de tele-espectadores assistíamos a tudo incrédulos, porque a equipe de salvamento não vinha – só 8 minutos depois – e a prova não era interrompida – tinha-se apenas bandeiras amarelas no local – Purley, corria para um lado e pro outro a procurar algo para conter as chamas e nada e nem ninguém o ajudava. Após pressentir que não adiantava mais, desolado e queimado, Purley fica a caminhar sem direção – mais tarde foi condecorado com a medalha George Medal, a mais alta conderação civil na Inglaterra –houve espectadores locais que tentaram ajudar o piloto a virar, mas foram praticamente rechaçados por policiais com cães. Após a prova, Stewart, vencedor – e um dos grandes defensores da segurança – disse em particular à sua esposa que ao final daquela temporada abandonaria as competições por estar cansado de ver amigos e colegas de profissão a perder suas vidas de forma tão gritante.

Hoje em dia, se vemos uma segurança quase que perfeita nas provas de automobilismo e nos próprios autódromos e circuitos, devemos em muito àqueles pilotos de outrora que se arriscaram em nome de algo que acreditavam ser possível de realizar e conquistar, mesmo que com suas próprias vidas o fosse necessário.

Essas fotos foram tiradas pelo holandês Cor Mooij e pelas quais ganhou o prêmio World Press Photo daquele ano.

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comentários
  1. Alex-Ctba disse:

    É Fernando, mais um relato comovente. Como dissemos lá no post sobre as mortes na F1, nos anos 70 a F1 tinha se tornado um circo de horrores. Todos assistiam impotentes a esses impávidos pilotos arderem em chamas quando esses carros colidiam mais forte. Mas como tudo na vida tem um propósito, o sacrifício deles fez com que a F1 tenha esse nível de segurança atual.

    Espero ler muitas crônicas desse seu “baú do automobilismo” que deve ter estórias incríveis.

    Abs

    • Fernando Kesnault disse:

      Obrigado Alex mas espero que este “baú” não signifique que eu seja velho viu?? O tempo passa rápido e cabe a nós aprendermos algo que nos dê satisfação e felicidade, mesmo diante das adversidades que sempre estão a nos espreitar….hahah, mas a gente joga elas pro lado e toca a vida não??

      • Alex-Ctba disse:

        Exato Fernando, e velhice para mim não é cronológica mas sim mental. Velhice é um estado de espírito. Conheço jovens de 70, 80 anos e velhos de 20 e poucos. Como eu disse, espero que tenhamos regularmente pérolas do automobilismo desse teu baú.

  2. Speeder_76 disse:

    O Dan Gurney disse que certo dia, em 1970, quando foi para a McLaren substituir o amigo Bruce McLaren, morto em Goodwood quando se preparava para a Can-Am, que começara a contar os amigos que tinha perdido. Quando chegou ao numero 50, começou a pensar no que estava ali a fazer e decidiu que era tempo de pendurar o capacete e dedicar-se à sua equipa, a Eagle.

    De facto, os anos 70 eram horriveis em relação à segurança e às mortes no automobilismo. E ando a descobrir, numa pesquisa que ando a fazer sobre a temporada de 1970, que houve o mês de Junho foi horrivel. Contabilizei quatro mortes em quatro semanas, duas delas na mesma corrida…

    • Alex-Ctba disse:

      Terrível mesmo os 70’s. Bom no teu caso, podemos ler essas crônicas diretamente no teu blog, que é ótimo e eu recomendo.

  3. Nick Mason disse:

    E o detalhe é que o Roger Williamson não morreu carbonizado, e sim sufocado pela fumaça em volta.

  4. Vitor, o de Recife disse:

    Antes de mais nada, o novo visual deu um aspecto de portal ao site. Grande trabalho, rapaziada!

    Quanto ao Kesnault, parabéns pela estréia, um tema triste com um relato primoroso. O inconformismo do Purley é comovente e a falta de preparo das autoridades automobilísticas daquela época é espantosa comparada com o profissionalismo de hoje. Longo e tortuoso caminho foi percorrido para chegar às condições atuais.

    Agora convenhamos: não deixa de ter um charme o romantismo irresponsável daqueles carros velozes e inseguros.

    Mais uma vez, parabéns.

  5. Ron Groo disse:

    Kesnaut, é um post maravilhoso, um dos melhores que já li sobre este assunto.
    Parabéns!
    É um assunto espinhoso este acidente.

  6. Vitor, o de Recife disse:

    Pequena correção a um detalhe besta: o nome do Bernoldi é Enrique, sem “H”.

    Puro preciosismo, eu sei… ;p

  7. Mari Espada disse:

    Fernando Kesnault meus parabéns pelo excelente texto! Gostei muito!!!
    Desse jeito fico até sem graça de postar aqueles meus rascunhos… =)

    Sabe, nunca tinha visto esse vídeo da morte do Roger Williamson.
    E neste momento posso dizer que ele me chocou da mesma forma que o Laranja Mecânica, quando o assisti pela primeira vez… provavelmente vou ficar pensando neste carro em chamas e no desespero do David Purley por uma semana inteira.

    A tristeza que o Purley transmite nessa terceira foto é tão intensa… ele tem um olhar completamente desolado… sinto muito por ele e pelo Roger.

    Felizmente a F1 está mais humana nos dias atuais.

    • Fernando Kesnault disse:

      Que isso Mari…sabe o que é fascinante na vida?? As diferenças.. assim como vc. escreve de uma maneira só sua,eu tenho a minha, o Claudemir tem a dele o Alex a dele e todos aqueles que contribuem (me desculpem a quem esqueci) faz a cara do blog e todos nós gostamos e é como dizem os franceses “vive la diference”…

  8. Mari Espada disse:

    Aliás, adorei a “roupinha nova” do nosso blog!
    Parabéns pela escolha, meninos!!!

    • Minha querida Atena, foi uma coisa feita de forma unilateral da minha parte, ainda quero ver a opiniões de vocês. E esse tema dá mais opções de publicações, mas para poder tirar 100% de tudo que quero no blog precisamos pagar, mas ainda não estamos no nível de fazer isso.

      Testei também um live blog, mas ninguém quis falar comigo, : ( , mas em dia corrida vamos testar.

      • Mari Espada disse:

        Agora o seu avatar terá que mudar… porque não temos mais essa tipografia no U do Ultrapassagem, né?!

        Não sei como funciona esse live blog… mas quando forem testar estarei presente!

  9. Sirlan Pedrosa disse:

    Claudemir,

    Ficou muito bom ! Ganhamos uma identidade.

    Tive até um susto quando entrei, pensei que tivesse errado de site.

    Parabéns !

    Sirlan Pedrosa

    • Moço, eu quero descolar nossa imagem a do blog do Becken, por mais que seja um excelente blog o dele, nós ficamos rotulados como filhote do F1 Around.

      Mesmo que nossa idéia e metodologia sejam totalmente diferentes ainda nos colam a ele.

      Então nada melhor que mudar a cara do nosso blog.

      E como disse, a plataforma paga é nosso próximo objetivo, será uma revolução em termos visuais e interatividade.

      Vamos crescer, e com ajuda de vocês todos, seremos grandes.

      • Marco disse:

        Claudemir , neste novo design , seu grupo demonstra que a satisfação e o bem-estar resultam do fato de vocês terem encontrado em definitivo a sua verdadeira personalidade . Parabéns .

  10. Marco disse:

    Neste dia Fernando , estava eu me preparando para entrar ” na casa ” dos 20 anos de idade , e eu estava alí , diante da TV , vendo tudo aquilo , nesse dia realmente trágico para a Fórmula 1.

    Era a segunda corrida desse piloto campeão de outras categorias de acesso à Fórmula1 .

    Com a precária segurança da época , os comissários de pista mal treinados e mal orientados , de forma lamentável , não sabiam o que fazer , e nós alí , vendo tudo aquilo barbarizados .

    A verdade é que , o esforço de D. Purley em resgatar R. Williamson , ficou para sempre na história da Fórmula 1 . Dizem , que esse acidente foi o estopim dos pilotos para lutar por melhores condições de segurança nas pistas .

    Mas só que , depois dessa catástrofe , ainda outras vidas foram embora : F.Cevert , P.Revon , T.Price , R.Peterson , P. Depailler … por fim A. Senna . Mas não tem dúvidas , temos que admitir que , depois daqule terrível dia , muita coisa modou no automobilismo , e pricipalmente , na Fórmula 1 .

    Grande abraço .

  11. Sirlan Pedrosa disse:

    Caro Fernando Kesnaut,

    Que texto lindo !

    Essa imagem do David Purley desesperado para salvar o amigo e depois andando perdido é de uma força….uma humanidade….emocionante.

    Hoje a segurança é maior e os pilotos mais frios também, quase não se envolvem e preferem se preservar.

    Lembro bem do Pirroni também desesperado tentando ajudar Ricardo Paletti em 1982, e da preocupação de Senna com Martin Donnaly em Jerez e com Ratzemberg em Ímola. Gestos cada vez mais raros.

    Um forte abraço,

    Sirlan Pedrosa

  12. Anselmo Coyote disse:

    Muito bom post, Fernando. Parabéns!

  13. E os comissários, que despreparo, ninguem ajudava o piloto no carro, e teve gente ainda tentando puxar ele para longe, logo ele que era o unico que tentava fazer algo, o que se passa pela cabeça de pessoas que estão ao lado de uma pessoa morrendo e ficam lá a assistir apenas, não adianta nem dizer que era medo de uma explosão ao algo do tipo, pois estavam tão proximos, apenas a ver o sofrimento do piloto no carro e do piloto tentando ajudar o companheiro, triste o video, alem de triste chocante.

  14. celso gomes disse:

    Fernando K meu caro,

    Somos da mesma geração e também tive o desprazer de presenciar pela TV, ao vivo e em cores, esse momento triste e extremamente amargo e me sentí quase tão impotente quanto ao Purley.

    O mais interessante pelo que eu noto que, toda vez que vejo qualquer vídeo das corridas do passado e principalmente dessas quando era adolescente, já virando adulto, o quão inseguro era esse automobilismo. Todos os envolvidos corriam riscos imensos de terem suas vidas ceifadas a cada competição e naquela que já era considerada a melhor e mais refinada do planeta. Dos pilotos, passando por mecânicos, bandeirinhas, fotógrafos e indo terminar com os torcedores. Eu, na época, não tinha a menor consciência desse risco – de virar mais uma fatalidade – talvez pela juventude, quem sabe? Williamson morreu em 1973 e só mais de vinte anos depois é que houve uma preocupação real e efetiva de se tornar as competições mais seguras e menos mortais.

    Me lembro de estar, juntamente com centenas de pessoas, amontoado num barranco, cheio de mato alto, em Interlagos ao ver a primeira prova de F1 lá realizada em 1972. Mais insegurança do que isso, só quem tava pilotando ou trabalhando nela. E as famosas invasões de pista, durante e principalmente nos términos das provas, onde Monza era o exemplo mais gritante da insanidade que tomava conta de todos os envolvidos. Dos organizadores aos torcedores. Será que ai, nessa louca insegurança, que residia boa parte do tal romantismo que as corridas do passado possuiam? Aquela proximidade perigosa com os carros é que era a mágica da coisa? Estranho…

    abç Fernando e parabéns pelo texto.

    • Fernando Kesnault disse:

      É Celso, o mundo em si mudou bastante, não é saudosismo apenas não e como disse o pensador Michel Foucault: “o sistema social e produtivo dominante ordena nossas vidas furtivamente, convencendo-nos de que não há opressão, mas apenas necessidades racionais”. Lembro-me de que prá viajar ao exterior bastava uma vontade de ir e passaporte é claro, e lavava pratos, dormia qdo. podia em albergues, as familias ajudavam, limpava-se um celeiro por comida e um canto pra dormir e hoje???…vc. não entra num país se não tiver a passagem de volta comprada, se não tiver um emprego estável e por aí vai…. bons tempos que tive a oportunidade de aproveitar….sou grato por isto…

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