As asas de cera dos touros vermelhos

Publicado: 25/08/2010 por Vitor, o de Recife em Artigos
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Red Bull. As latinhas de energéticos mais famosas do mundo, patrocinadora de diversos esportes, nas modalidades mais divesas: aéreos, ciclismo, skates e outros esportes radicais, jogos de inverno, esportes aquáticos e automobilismo. Este último inclui o WRC, Motocross, DTM, NASCAR (em suas diversas divisões), Formula 1 (com duas equipes) entre outros.

Ao centrarmos nas ações da empresa na F1, podemos perceber que a Red Bull desenvolve um papel muito interessante com seu grande programa de formação de pilotos para a categoria. A ideia de uma “fábrica de talentos” não é nova: a petrolífera francesa Elf já havia desenvolvido um programa de apoio a novos pilotos nos anos 70. Esta iniciativa rendeu bons frutos, com vários pilotos franceses chegando à F1, incluindo o mais bem sucedido de todos: o tetracampeão Alain Prost. No entanto, a estrutura da Elf não pode ser comparável aos parâmetros montados pela companhia austríaca, que possui um âmbito de atuação muito maior.

Quais foram os resultados do programa de formação de pilotos da Red Bull até o momento? Este artigo, de forma resumida, fará uma pequena análise da relação da Red Bull com a F1 e sua política de desenvolvimento de pilotos para a categoria.

A Sauber: porta de entrada para a F1

Frentzen em Estoril, 1995.

A primeira aparição da Red Bull na F1 aconteceu em 1995 com a equipe suíça Sauber, tendo como pilotos o alemão Heinz Harald Frentzen e o talentoso austríaco Karl Wendlinger, que retornava depois de um gravíssimo acidente em Mônaco, na trágica temporada de 1994. Wendlinger jamais voltou à forma passada e terminou sendo substituído pelo piloto reserva Jean Christoph Boullion. Em seus dez anos de duração, a parceria Sauber/Red Bull nunca viu nenhum dos pilotos bancados pela empresa de Dietrich Mateschitz ocupar um cockipit titular; no máximo, indicava os pilotos de testes, como o brasileiro Enrique Bernoldi e o suíço Neel Jani, jovens integrantes do time da Red Bull na F-3000. A alternativa da empresa foi lançar seus pilotos por outros times e, assim, Bernoldi fazia sua estreia na F1 em 2001 pela Arrows, enquanto a equipe principal da Red Bull, a Sauber, preferia lançar um inexperiente finlandês chamado Kimi Raikkonen.

Rumo à equipe própria

David Coulthard e Mark Webber: pragmatismo visando o futuro.

Já que as portas da Sauber estavam fechadas para os seus pilotos, a Red Bull continuava a procurar espaço para os seus protegidos em outras equipes. O próximo piloto seria o austríaco Christian Klien, que estrearia pela Jaguar em 2004. E esta equipe seria a base para o lançamento de um projeto ambicioso de Mateschitz: um time próprio na categoria. A oportunidade veio no fim daquele ano, com o anúncio da saída da Jaguar da F1. Com os espólios da equipe baseada em Milton Keynes, a Red Bull contrata o experiente piloto da McLaren David Coulthard para ajudar o desenvolvimento de seus carros e servir como referência para seus jovens pilotos, a começar por Klien, que em 2006 teria que disputar espaço com outra promessa bancada pela empresa, o holandês Robert Doornbos.

No fim de 2005, a Red Bull dá outro passo grandioso na F1 ao adquirir a falida Minardi de Paul Stodart. É lançada a Toro Rosso, um time “júnior” da Red Bull, que serviria como uma equipe base, para promover experiência para seus jovens pilotos. Já a equipe principal, em 2007, prega pelo pragmatismo e contrata o australiano Mark Webber para preencher o segundo cockipit. Com dois pilotos experientes, Coulthard e Webber, a Red Bull prima pelo desenvolvimento do carro de sua equipe principal, apostando principalmente na capacidade da sua mais valiosa aquisição: o engenheiro Adrian Newey.

A busca por um campeão norte americano

Quanto aos novos pilotos, a equipe continua com seu programa de desenvolvimento. Em 2002, outro projeto ambicioso era lançado pela equipe: o Red Bull Drivers Search. O subtítulo do programa era claro: “searching for the future American F1 Champion”. O programa testou diversos pilotos americanos, que competiam em várias categorias, como Colin Fleming (World Series da Renault), John Edwards (campeonato Italiano de Kart e Formula Renault Européia), mas o escolhido terminou sendo Scott Speed, que fez sua entreia na Toro Rosso em 2006, junto com o italiano Vitantonio Liuzzi. Speed continuou com a Toro Rosso até meados de 2007, quando se desentendeu com a equipe e terminou sendo substituido pelo promissor alemão Sebastian Vettel, então piloto de testes da BMW Sauber. É bom que se frise que a busca pelo “campeão americano” chegou a render alguns frutos promissores, mas longe da F1. Na já combalida Champcar, um jovem piloto que participara do “Red Bull Drivers Search”, A.J. Allmendinger estreava em 2004, terminando o ano como o o título de “rookie of the year” (melhor novato). Dois anos depois, terminava na terceira colocação do campeonato, com cinco vitórias; porém, em 2007 aceita o convite da sua patrocinadora, a Red Bull, para engrossar lista de ex-pilotos da Indy/Cart que trocariam os monopostos pela NASCAR. Allmendinger correria pela equipe oficial da Red Bull.

O destino dos pilotos Red Bull

A impressionante vitória de Sebastian Vettel com uma modesta Toro Rosso em Monza, 2008, parecia ser um “pay-back” pelos anos de investimento e milhões de dólares gastos por Mateschitz na busca pelo “escolhido”. Mas este resultado esconde uma série de tentativas “falhas”. Muitos pilotos passaram por verdadeiros testes de sobrevivência e muitos foram descartados após não atingirem o resultado esperado.


Bernoldi à frente de Coulthard em Mônaco, 2001.

Nesta lista está o brasileiro Enrique Bernoldi, que viu sua chance de seguir em frente na categoria prejudicada por uma equipe complicada como a Arrows, que fechou as portas no meio da temporada de 2002. O contrato com a Red Bull terminou no final daquele ano. Bernoldi ainda tentou retornar como piloto de testes da BAR/Honda, entre 2004 e 2005, mas não teve chances de ascender na categoria.

Pilotos americanos do projeto “Drivers Search” também tiveram seus contratos encerrados e seguiram suas carreiras sem o suporte da Red Bull. John Edwards compete atualmente na Rolex Sports Car Series GT; Allmenndinger, após uma temporada irregular na Nascar, em 2007, teve o seu contrato rescindido, mas se mantém na categoria. Já Scott Speed continua sendo um piloto da Red Bull, aliás bem estabelecido, correndo na equipe oficial da empresa na Nascar.

Após passagens na Stock Car, Indy e Superleague, Enrique Bernoldi atualmente compete no campeonato FIA GT. Robert Doornbos, também com passagens na Champcar e Indy, defende o Corithians na Superleage. Outros pilotos com passagem na F1 que tiveram seus vínculo rescindidos com a Red Bull foram o ex-Minardi Patrick Friesacher (A1 GP) e o indiano Narain Karthikeyan (Nascar Truck).

Os únicos ex-pilotos da Red Bull que ainda mantém vínculo com a F1 são Vitantonio Liuzzi, titular da Force India, e Christian Klien, reserva da Hispania.

Brendan Hartley, ex-piloto de testes da Red Bull na F1.

A última dispensa do programa de pilotos foi o neozeladês Brendan Hartley,um dos pilotos de testes da equipe Red Bull na F1, junto com o australiano Daniel Ricciardo. A notícia da saída dopiloto causou um rebuliço na imprensa: Hartley, assim como Ricciardo, é piloto rubrotaurino na World Series da Renault. Até sua dispensa, Ricciardo conquistou duas vitórias e ocupava o segundo lugar do campeonato; Hartley, sem nenhum trunfo, estava na sexta colocação. No entanto, o neozelandês era bastante elogiado nos seus trabalhos junto aos simuladores da equipe em Milton Keynes e a dispensa teria sido efetuada sem comunicar a equipe de F1.

A pressão por resultados – ou, podemos dizer, um novo Vettel – certamente tem atrapalhado o programa da Red Bull, que exige resultados imediatos. É para se pensar se o peso desta resposabilidade não tem afetado o desempenho da estrela alemã, que tem sido surpreendido pelo desempenho por vezes superior do então subestimado Mark Webber.

Vejamos o desenrolar dos próximos capítulos.

comentários
  1. Mari Espada disse:

    Vitor, parabéns pelo excelente artigo cheio de informação!
    E eu adorei a relação com a mitologia… só espero que a Red Bull não tente voar tão próxima ao Sol quanto Ícaro! Porque o final dessa história a gente já sabe, né?

    E eu estava pensando, se a McLaren passar por uma crise financeira por falta de petro-dólares, ela podia começar a vender “água suja” em uma latinha bonitinha, não acha?
    Porque parece que isso dá dinheiro. =)

    Mas eu realmente fico impressionada com a quantidade de patrocínios da Red Bull em diversos esportes… e geralmente esportes bem legais, como aquela corrida de aviões, motocross e a própria F1.

  2. Vitor, o de Recife disse:

    Valeu Mari!

    A Red Bull está presente em praticamente todos os esportes de alto risco. Dá pra ver o que eles patrocinam no site deles.

    http://www.redbull.com/cs/Satellite/en_INT/Sports/001242745950183

    Atletas/equipes apoiados (entre eles, a CItroen do saudoso Raikkonen).

    http://www.redbull.com/cs/Satellite/en_INT/Athletes/001242745950144

  3. Allan Wiese disse:

    É impressionante notar como a Red Bull, apesar de ter plenas condições de ser uma grande equipe, ainda mostra falta de maturidade para lidar com questões básicas. Como a equipe de F1 permite que eles demitam um piloto de testes de F1 sem ser comunicada do fato? Dentro da própria equipe eles tem uma mostra de que um trabalho de formação de pilotos funciona. Mas, talvez por Vettel ter trazido ótimos resultados em um curto prazo, eles pensam que todos os pilotos terão o mesmo ritmo. Na minha opinião esse tipo de coisa deve ter o médio prazo no horizonte já que é raro encontrar pilotos capazes de trazer ótimos resultados no curto prazo.

  4. Fernando Kesnault disse:

    Excelente texto Vitor, detalhando fatos que eu desconhecia. Agora vamos por parte: O “Staff” da Red Bull é horrível em avaliar e tomar decisões. Dispensar o Almendinger que vem fazendo um bom trabalho na Sprint Cup com um carro modesto e continuar com o Speed que nada ffez até hoje?? São burros. Deixar o Neel Jani e mesmo Bernoldi (bom piloto) e manter na Toro Rosso dois horríveis pilotos que nunca fizeram nada nas categorias de base?? Tá faltando gente com “feeling” prá fazer estas avaliações… e assim vai jogando dinheiro fora, fácil, fácil e um dia faz falta, sempre faz….

  5. Felipinho disse:

    Belíssimo texto, deve ter custado algumas horas de pesquisa para produzir este excelente material.

    Quando vi a foto do tal Brendan Hartley, achei que fosse um daqueles Hanson.. kkkkk

    Quanto a Red Bull, é bem provável que a falta de retorno pelo investimento feito até hoje realmente tenha queimado vários nomes, talvez se ganharem um título este ano as coisas se acalmem.

    • O grande problema dos programas de desenvolvimentos de pilotos é que na F1 existem apenas 2 vagas, e quando um piloto chega lá, fica pelo menos 5 anos roendo a carne, os que estão batendo na porta e roendo o osso vão perdendo espaço, dinheiro e envelhecendo ao mesmo passo.

      Então por isso pilotos desses programas são constantemente queimados, podia citar vários, mas vou me ater apenas ao Lucas di Grassi como um exemplo, esse passou mais de 5 anos no programa da Renault, e quando foi sua vez de pilotar em 2008 fui passado para trás pelo Briatore, quando devia substituir o Nelsinho foi novamente passado pra trás, então perdeu as oportunidades, calma e dinheiro.

      Esses programas são para fazer publicidade, não jovens pilotos.

      Desafio alguém a dizer qual desses programas deu fruto de verdade nos últimos 20 anos.

      • Allan Wiese disse:

        Não tenho argumentos, mas gostaria de saber sua opinião a respeito de Lewis Hamilton, que foi formado em um programa desses…

      • A Mclaren não tem programa de jovens pilotos Allan, e sinceramente não lembro de um dia ter.

        Já o caso do Hamilton foi apadrinhamento do Ron Dennis, ele auxiliou a carreira do piloto o quanto pôde até ele chegar em sua equipe, mas mesmo assim, o inglês não participou de um programa como era o Renault Drivers Development, famoso RDD, que não serviu pra nada até agora, e acho que o di Grassi e Grosjean não vão queimar minha língua.

      • Vitor, o de Recife disse:

        Os pilotos com melhores resultados que já passaram pelo RDD, até o momento, são Kubica e Kovalainen.

        Os pilotos do RDD de 2010 são: Ho-Pin Tung, Jérôme d’Ambrosio, and Jan Charouz. Alguém aposta em algum deles?

      • Allan Wiese disse:

        Interessante o que se tornou o esporte de um modo geral nos dias de hoje. Se você tem muito talento, alguém vai te patrocinar e você vai chegar às grandes equipes/clubes. Se você não tem tanto talento mas tem dinheiro, pode chegar à algum lugar intermediário e aproveitar um pouco da situação.
        É um mundo muito seletivo o do esporte profissional. A criança apaixonada pelo esporte que pratica tenta até certo ponto seguir carreira. Depois, percebe que sem apoio não vai a lugar algum e desiste de se profissionalizar para investir em estudos ou outra função. Alguns se mantém iludidos por muito tempo e perdem uma boa parcela de suas vidas tentando até verem que não dá. E alguns são sortudos de encontrarem o apoio para chegar lá…

  6. Alex-Ctba disse:

    Muito bom o texto Vítor. Mas como diz Herbert Vianna do Paralamas do Sucesso “O Céu de Ícaro tem mais poesia do q o de Galileu…”

    Abs

  7. […] outro motivo para a quase certeza de sucesso se chama Sebastian Vettel, a estrela do programa de pilotos da Red Bull. Sim, o jovem alemão que tanto errou em 2011 – e ainda assim, pode ser campeão em Abu Dhabi […]

  8. […] para desenvolver sua carreira. Vettel representa nada menos do que o sucesso do impressionante programa de formação de pilotos dos touros vermelhos, coordenado por Helmut […]

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