A minha pista predileta não é Spa!

Publicado: 30/08/2010 por Ron Groo em Artigos
Tags:, , ,

Quem não tem uma pista predileta? Todos nós temos, seja em que categoria for todos temos.

A minha é Monza, por questões afetivas.

Foi lá que assisti – pela TV, claro – o meu primeiro grande prêmio. E que maravilha! Piquet ganhou a corrida e de quebra levou o bi campeonato mundial.

Mesmo sem ter muita noção do que acontecia, vibrava com a Brabhan contornando a Di Lesmo, vencendo a Parabólica, as Variantes altas e baixas…

Monza é velocidade em estado bruto. E brutal, como algumas dezenas de mortes por lá podem atestar.

Mas, quem em sã consciência poderia desprezar uma pista como Spa Francorchamps? Eu não sou louco a este ponto e acredito que ninguém seja.

Quem gosta de automobilismo, gosta de Spa. Não há como dissociar.

A pista é um espetáculo, sempre foi. E mesmo agora em que com o passar dos anos, por necessidades nem sempre inerentes ao automobilismo ou a competição a pista foi sendo –pontualmente – modificada, nem assim conseguiram tirar a majestade desta seqüência de subidas, decidas, curvas para os dois lados, freadas fortes e muito flat – out no acelerador.

Começa-se pela La Sorce. Travadissíma e que faz com que a largada seja muito, mas muito mais tensa do que normalmente é. Com chuva então é quase um desafio de Titãs.

Não é raro que os pilotos usem – sem vergonha alguma – a área de escape desta curva.

Logo desembocam em uma reta em descida que precede um mito das curvas.

Eau Rouge não é apenas uma curva, é uma entidade.

Vencer a Eau Rouge com o pé em baixo é como chegar ao topo do Everst.

Berger disse que: “-enquanto se desce a pequena reta, a cabeça diz que não é possível contorna-la de pé embaixo. Mas o coração diz que sim e grita por isto como se fosse vital!”.

Nunca estive lá, claro, mas não duvido desta descrição.

A descarga de adrenalina no cérebro deve ser tão forte que apaga qualquer tentativa de raciocínio lógico em prol de uma “segurança” que lhe tiraria preciosos décimos de segundo.

Em resumo: Eau Rouge é para homens!

Ricardo Zonta que o diga…

A reta Kemmel é um trecho muito rápido e bonito, como todo o circuito é bonito, mas é onde se vê que o circuito é também uma bem urdida mistura de velocidade e inteligência na preparação do carro.

E foi nesta reta que Mika Hakkinen fez de bobo o grande Schumacher ao ultrapassá-lo usando como pivô Ricardo Zonta. Schumacher nunca imaginaria uma manobra daquelas e o brasileiro menos ainda. Uma das manobras mais bonitas da história deste esporte.

Diferente de Monza, onde se pede um bólido quase sem asas para aproveitar as retas, Spa pede um refinamento aerodinâmico que não impeça o carro de ser indescritivelmente rápido nas retas, mas também nas curvas.

E é no fim da Kemmel que vem a primeira prova disto: a seqüência Les Combes vem com uma freada tão forte que os estômagos mais sensíveis jogariam para fora o almoço de dois dias atrás.

A Rivage, Malmedy, Pouhon, Fagnes e Paul Frere são em descida, já dentro da histórica floresta de Ardennes, onde na Segunda Grande Guerra travou-se muitas batalhas sangrentas.

A batalha aqui é manter-se vivo e rápido o suficiente para ganhar tempo e força para encarar a subida que desemboca em outra lenda do automobilismo: a Blanchmont..

De pé empurrando o pedal do acelerador até tocar o assoalho do carro a curva é diabolicamente rápida e muito traiçoeira.

Um milésimo de distração e se é apresentado à barreira de pneus que tenta fazer a segurança do local.

A nova seqüência denominada de Bus Stop nada tem com a original. Na verdade é uma chicane das mais comuns, diferentemente do que era alguns anos atrás quando realmente se parecia com uma parada de ônibus.

O enquadramento da TV naquela época mostrava a dificuldade de fazer a chicane.

O carro vinha totalmente acelerado na saída da Blanchmont, freava muito forte e guinava para a direita, uma pequena reta e outro golpe no volante para a esquerda e tome aceleração…

Ayrton Senna fechou sua volta rápida em 1991 com fantásticos 1:47:08, na pole.

E some-se a tudo isto a sempre presente possibilidade de chuva, que se não no traçado todo, ao menos em algum ponto da pista. O que é ainda mais complicado.

E ainda há quem diga que o circuito original era ainda melhor! Para os que duvidam, fica aqui a sugestão. Veja a seqüência da corrida belga do filme Grand Prix, de John Frankenheimer.

A corrida que ele retrata lá á de 1966, com o circuito original.

E é isto, aqui está a minha primeira contribuição com o Site Ultrapassagem, espero que gostem!

comentários
  1. Allan Wiese disse:

    Se é essa a emoção que você usa para descrever Spa, que não é a sua predileta, uma descrição de Monza deve ser estupenda!

    Parabéns Groo.

    • Ron Groo disse:

      Obrigado Allan, mas descrever Monza é meio monótono… Acelera-se ao extremo, freia-se bem pouco.

      Agora, quando se está nas Di Lesmo, ou mesmo na Parabólica é bom manter os olhos na pista, se não…

  2. groo, gostei. eu não tenho esta sensibilidade pros circuitos. espero um dia ter. tenho de me esforçar pra lembrar a seqüência de curvas e retas e coisas assim. mas sem dúvida o circuito é uma das coisas a serem desfrutadas. ah, gostei do nick groo, adorava o personagem do aragones. seja bem vindo e parabéns. abraços!

    • Ron Groo disse:

      Grande Alexandre, tomara que você fique bem longe do Só pra contrariar… rs.

      Mas então. Um bom circuito é legal para se ter uma boa corrida. Alguns Tilkes não deixam isto acontecer, fora a pista da Malásia e da Turquia que são legais…

      E quanto ao nick… Bem… É nome, viu… E eu também adoro o Aragonés e seus desenhos… Mas curto mais o trabalho do Mark Evanier, que põe os textos no gibi…

  3. Bom, muito bom, e eu sou suspeito pra falar dos textos que são escritos aqui, então parabéns e bela estréia.

    Só me desculpe se o título não ficou a contento, mas achei apropriado.

    Se fizer com essa mesma paixão o de Monza, posto na hora, rsrs.

  4. Mari Espada disse:

    Genteee, isso aqui é poesia pura!!!! Amei!!!

    Ron Groo, estou apaixonada pelo seu texto sobre Spa, da mesma forma que fiquei apaixonada pelo texto do Valentino Rossi (sobre sua saída da Yamaha) uns dias atrás.
    Já li 3 vezes o seu texto! E vou ler mais, pode ter certeza, porque além de estar maravilhoso eu fiquei viciada em viver a emoção do circuito através de suas palavras.
    Fantástico! Parabéns pela bela estréia no Ultrapassagem!!!

    Sabe, Spa é a minha pista favorita sim (por causa de tudo isso que você descreveu)!!!
    Mas também gosto de outras, como Monza (pela velocidade e tradição), Mônaco (pela tradição e pelos muros à 2cm do carro), Montreal (por memória afetiva da primeira vitória do Hamilton), Suzuka (pela paixão do meu marido ao correr nessa pista nos video-games) e a minha mais nova paixão Nurburgring (pela história do circuito – não só do autódromo).

    Assim como disse o Alexandre, eu também não tenho memória para fechar os olhos e saber a sequência de curvas de um circuito, quem dirá saber nomeá-las e descrevê-las.
    Mas por ser arquiteta (e também por causa dos video-games) tenho algumas pistas “em planta” na minha memória… mas até aí saber se é descida, subida, em qual marcha deve ser feita, em qual velocidade… Espero um dia chegar lá!

    Beijos! Estou aguardando seu próximo texto! =)

    • Ron Groo disse:

      Obrigado Mari! Fiquei lisonjeado com suas palavras.
      Quanto a memorizar nome de curva… Bom… Hoje em dia nos novos não tem nomes né… É tudo curva com número.
      Nomes só nos tradicionais, que infelizmente, estão cada vez mais raros.

  5. Vitor, o de Recife disse:

    Groo, já começou bem! Descrição maravilhosa de Spa, belíssimo texto! Que seja o primeiro de muitos.

    Abraços.

  6. Will disse:

    Ron, lindo texto. Raras vezes temos a oportunidade de correr por um circuito através de textos, hoje foi uma bela chance.

    Spa me surpreende a cada ano, desde 87, eu sempre penso que a corrida da Bélgica não poderia ser melhor – mas sempre acontece…

  7. Ingryd Lamas disse:

    Aonde esta a caixa de lencos que deixei por aqui…
    Linda descricao do circuito, Spa e mesmo de tirar o folego, dos que a tem por predileta, ou nao.

    Beijos!

  8. Fernando Kesnault disse:

    Belo texto Groo, conheço o teu blog e sei que escreves muito bem.
    Vou falar com o “boss” para que eu possa começar a falar sobre circuitos em seus pormenores, vários daqueles que todos nós gostamos, desde o 1º traçado até suas últimas modificações. Seria vamos dizer, uma série que será apresentada com fotos e dizeres (não tão bons quanto os seus, lógico).
    Tenho vários circuitos que adoro, alguns que tive a sorte de vivenciar ao vivo e “sentir” suas vibrações do que já foi presenciado ali. É difícil de descrever mas é uma sensação que me faz vibrar interiormente.
    Adoro Elkhart Lake, Kyalami (antigo), Laguna Seca (com o trecho do sacarrollhas), long beach, montreal, mont tremblant, indianapolis (este sim um templo do automobilismo), le mans, clermont-ferrand, paul ricard, brands hatch, nurburgring, osterreichring (antigo), interlagos (antigo), balcarce (na argentina, pois tem uma passagem por cima e por baixo), Enna-Pergusa,….nossa chega senão coloco todos…vou começar a fazer esta série para que vcs. entenderem o que falo…

    • Ron Groo disse:

      Obrigado Fernando pelos elogios.
      Vou ficar no aguardo de sua série ansiosamente.
      No momento trabalho em um texto de realismo fantástico sobre certa parte anatômica da estátua equestre de Duque de Caxias… Mas assim que terminar volto para a F1 normalmente.

  9. Alex-Ctba disse:

    Texto maravilhoso. Obrigado Groo, pelo belo post nessa segunda pós GP.

    Agora fico no aguardo de outros posts sobre as fantásticas Abu Dhabi, Bahrein, Barcelona e Valência :D

  10. Muito bom o filme (Grand Prix), é uma otima pedida para os que ainda não assistiram e tambem para quem já assistiu.

  11. Ron Groo disse:

    Penso que Grand Prix é obrigatório… Como lição de casa.

  12. Fábio disse:

    Ah, cara… Se eu disser que fiquei profundamente emocionado não só com o texto, mas também com o trecho do filme. Os olhos encheram de lágrimas. E eu ainda não vi o Grand Prix, mas…

    Não sei explicar. A exposição quase provocadora à morte em comparação com esses tempos hiper-seguros que vivemos, a liberdade de sentar num carro e acelerar… Não vi o filme ainda, mas agora, definitivamente, percebi que se trata de uma experiência obrigatória.

    Apesar de tudo, a Spa de hoje também não é a minha favorita. Gosto um pouquinho mais de Suzuka. Mas é impossível o sujeito gostar de automobilismo e não gostar de Spa, como você bem disse, e a pista está sim entre as minhas favoritas.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s