A Morte de uma Estrela da Fórmula Um

Publicado: 05/09/2010 por Alexandre Pires em Artigos, Formula1, Fotos, História da F1
Tags:, , , ,

Jochen Rindt: XL Aniversário da Morte

A Morte de uma Estrela da Fórmula Um

Jochen Rindt foi campeão apenas uma vez. No entanto, é difícil outro piloto despertar tanta emoção quanto o austríaco. Rindt é o único a conquistar o campeonato postumamente. O acidente fatal dele em Monza há 40 anos o transformou numa lenda.

Jochen Rindt

Jochen Rindt estampa as manchetes novamente, 40 anos após o acidente dele em Monza. Quando dois documentários televisivos a respeito de um piloto que está morto há quatro décadas vão ser feitos, então, o cara deve ter tido algo de especial.

O cinco de setembro de 1970 foi um dia triste na história da Fórmula Um. Com Rindt morreu um dos melhores embaixadores do esporte dele. Após a morte dele, ele passou a ser cultuado como herói, embora tenha conseguido vencer apenas seis grandes prêmios, igual Gilles Villeneuve. Os contemporâneos dele descrevem o esperto austríaco como, com uma expressão espirituosa, o “James Dean da Fórmula Um”.

Jochen Rindt numa liga com Clark e Senna

Os feitos esportivos de Rindt não podem ser comparados aos de Jim Clark ou Ayrton Senna, ainda assim o austríaco divide espaço com as duas lendas da Fórmula Um. Porque ele foi um cara que fascinou os fãs durante a vida dele. Porque ele fez uma corrida espetacular e venceu o que ninguém poderia ter vencido. E certamente porque ele morreu num carro de corrida. Rindt é o único dos 31 campeões que ganhou o título dele postumamente.

Helmut Marko, compatriota dele, descreve o que o nome de Rindt ainda desperta na Áustria e em qualquer lugar: “O fascínio por Jochen hoje é inacreditável. O túmulo dele em Graz ainda é venerado. Não é nada arquitetado. Pessoas completamente estranhas vem e deixam flores espontaneamente.”

Austríaco com raízes alemãs

Karl Jochen Rindt nasceu em 18 de abril de 1942. Quando ele tinha três anos de idade, os pais dele morreram num bombardeio, no fim da guerra. Rindt foi entregue aos avós dele em Graz, mas manteve o passaporte alemão dele. Como ele sempre pilotou com licença austríaca, ele foi considerado pelo regulamento da Federação Internacional como austríaco.

O talento dele já era visível na Fórmula Júnior e na Fórmula Dois. Rindt procurava constantemente o limite, de preferência o cruzava. No grande prêmio austríaco de 1964, ele estreou na Fórmula Um com uma Brabham-BRM. A partir de 1965, foi um ás do volante com os traços distintivos de um piloto titular na Fórmula Um. Os três primeiros anos com a Cooper, 1968 com a Brabham, a última temporada da carreira com a Lotus.

Rindt vence em Le Mans, em 1965

O terceiro lugar no campeonato de 1966 num Cooper-Maserati peso-pesado mostrou as qualidades dele, assim como o triunfo de 1965 nas 24 Horas de Le Mans junto com Masten Gregory. Uma aposta nas 500 Milhas de Indianapolis terminou com um acidente espetacular. Na Fórmula Dois, que era vista como o antigo celeiro de pilotos de Fórmula Um, Rindt era tratado como um rei sem coroa. Ninguém venceu na segunda divisão com tanta freqüência como ele venceu.

No entanto, Rindt, em todos os anos, colou a fama de eterno talento com a de gênio descuidado. O famoso jornalista de automobilismo, Denis Jenkinson, apostou a barba ruiva dele que Rindt nunca venceria um grande prêmio. De fato, o austríaco teve de esperar 49 corridas até finalmente alcançar, em 1969, em Watkins Glen, o lugar mais alto do pódio numa corrida de Fórmula Um.

“Típico de Jochen”, conta Jack Stewart, amigo dele. “Ele escolheu a corrida que dava o maior prêmio em dinheiro”. Alguns dias depois, Rindt recebeu um envelope de Jenkinson. Conteúdo: a barba raspada. Rindt tinha um bom tino comercial. Ele tinha um dos maiores salários do ramo, morava no lago de Genebra, teve um salão do automóvel de propriedade dele e apresentou uma atração automobilística na televisão pública austríaca.

Colin Chapman (E) e Jochen Rindt (D).

Mudança para Lotus: Rindt quer o título

A Lotus tinha então a fama de fabricar carros rápidos, leves e geniais mas frágeis. Rindt também não estava confortável com a idéia de mudar para a equipe de Colin Chapman, embora tenha feito isto com palavras: “Se eu quero ser campeão, eu tenho de estar na Lotus.” O casamento com o fundador da Lotus, Chapman, foi de conveniência desde o começo.

Era a época em que as asas dos carros aumentaram. O caso extremo era a Lotus, como de costume. No grande prêmio espanhol, no circuito de rua de Montjuich, tocou primeiro na asa traseira de Graham Hill. O inglês ficou horrorizado quando viu o carro dele parar a aproximadamente 150 metros da barreira de proteção.

Quando retornou aos box, Hill advertiu os colegas dele de equipe do mesmo defeito. Antes que pudesse avisar Rindt, que também trabalhava com ele nas asas semelhantes à base de guilhotina, a Lotus de Rindt atingiu a barreira de proteção após passear pelos fragmentos de Hill e capotar. O acidente do piloto terminou com um nariz quebrado e uma concussão devido aos fragmentos da Lotus 49 dele.

Sem confiança na frágil Lotus

Quando perguntaram se ele perdeu a confiança na Lotus, Rindt respondeu com uma pitada de sarcasmo: “Eu nunca tive.” Para a temporada de 1970, o desbravador Chapman pensou em algo especial. Enquanto Rindt começava a temporada com um modelo modificado da 49C do ano passado, a Lotus preparava duas armas secretas numa missão oculta. O modelo 63 com tração nas quatro rodas e o modelo 72 que foi uma revolução na corrida de carros.

O mecânico Herbie Blash, agora como chefe de equipe a serviço da FIA, relembra: “Ao todo a Lotus tinha 25 empregados. Eles tinham de participar da Fórmula Um, da Fórmula Três, da Indy e da promoção do esporte a motor. Apenas seis pessoas da equipe iam aos grandes prêmios. Além de Chapman e dos pilotos. No momento em que nós estávamos na Fórmula Um com a 49C, a 63 e a 72, três carros diferentes, então, nós tínhamos muito trabalho e era muito difícil dormir. O empresário de Jochen, Bernie Ecclestone, alertava Chapman de tempos em tempos. ‘Seu pessoal está cansado. Você os deixa trabalhar muito’.”

Jochen Rindt em 1970

A revolucionária Lotus 72

O projeto com tração nas quatro rodas foi descartado para o campeonato após não pontuar em Oulton Park, para alegria de Rindt. Ele odiava o carro. Mas a estréia da Lotus 72 estava atrasada. O bólido vermelho e branco foi um marco na história da Fórmula Um. Em meio a produtos concorrentes respeitáveis, parecia um veículo de outra categoria automobilística. A forma de cunha, o radiador montado na lateral, os freios dianteiros internos, a traseira mais pesada e asa traseira tripartite eram elementos vistos pela primeira vez.

Rind desconfiava do carro, sobretudo, dos freios dianteiros internos, que foram associados com a vibração das rodas durante as frenagens. Os discos de freio no interior do carro não podiam ser resfriados tão bem quanto os externos, causando temperaturas altas nos discos de freios perfurados, o que levou a repetidos problemas de material. Como os discos estavam num túnel de duas câmaras, isto às vezes trouxe distorções na interaçãos deles. Mais de uma vez, um dos discos quebrou com as devidas conseqüências. O carro era, portanto, difícil de controlar.

1970: primeira vitória da temporada em Monte Carlo

A 72 foi lançada na segunda etapa da temporada, em Jarama, com uma estréia sem brilho. Rindt abandonou após dez voltas, com problemas na ignição. Em Monte Carlo, Rindt conquistou sua primeira vitória na temporada. Ele estava numa Lotus 49C com a asa traseira tripla da Lotus 72. Até o meio da corrida, o austríaco estava, sem perspectiva, atrás do rival dele no campeonato, Jack Brabham. A partir de então, ele iniciou uma reação, com tempos de volta oito décimos abaixo do da ‘pole position’ e 2,7 segundos abaixo do próprio tempo dele nos treinos. Brabham ficou tenso, escapou na última curva da última volta e Rindt somou os primeiros nove pontos dele.

Em Spa, houve uma disputa com Chapman de novo. A Lotus 72 de Rindt se recusou a correr. Na temida pista de alta velocidade, então com longos 14 quilômetros, ele preferiu a aprovada 49C. Foi apenas em Zandvoort que o fantástico carro mostrou suas qualidades. Rindt venceu sem ameaças. Foi uma conquista amarga. O melhor amigo piloto dele, Piers Courage, morreu carbonizado após um acidente com um De Tomaso preparado de Frank Williams.

Rindt celebra uma série vitoriosa no verão

Depois disto veio um verão inesquecível. Rindt venceu em Clermont-Ferrand, Brands Hatch e Hockenheim e correu com o título dali em diante. A série vitoriosa dele o fez uma estrela até no hostil automobilismo alemão. Os meios de comunicação estavam de repente interessados na categoria mal-vista do esporte. Isto levou alemães e austríacos a disputarem a nacionalidade do futuro campeão. Hockenheim, com 140 mil visitantes no domingo, registrou uma marca de público.

O grande prêmio austríaco registrou logicamente um afluxo ainda maior. Zeltweg colapsou em todos os trajetos. Rindt se afirmou na república alpina em termos de popularidade, sombreou até os esquiadores. Nos treinos, Rindt confirmou as esperanças depositadas nele com a ‘pole position’, embora a extensão de Zeltweg favorecesse os doze cilindros mais potentes da Ferrari, da Matra e da BRM. Mais uma vez os mecânicos tinham de trabalhar dia e noite. Blash: “Ken Tyrrel ameaçou protestar se nós não estreitássemos as entradas de ar laterais. Elas estavam na opinião dele meia polegada mais largas. Nós tivemos de trabalhar a noite toda nos radiadores para o carro cumprir o regulamento.”

Os discos de freio sabidamente vulneráveis da Lotus

Na corrida, o herói nacional, contudo, fracassou. Uma falha do motor encerrou a série vitoriosa. Mas o grande prêmio austríaco reascendeu as suspeitas de Rindt a respeito da engenharia do carro dele de novo. O colega de equipe, John Miles, conseguiu evitar os infortúnios de um acidente, causado pela quebra do disco de freio dianteiro. O inglês, que parecia um estudante de teologia, encarou a morte. O piloto pediu então discos mais fortes, Rindt se propôs a perder peso por um período de tempo, mas Chapman fez ouvidos moucos para isto.

Apesar da frustração no grande prêmio em casa, Rindt viajou confiante para Monza. Jack Brabham estava 25 pontos atrás com quatro corridas para o fim da temporada. Embora, Rindt soubesse que a ameaçava provinha de Jacky Ickx, cuja Ferrari 312 se tornava melhor a cada corrida e que trazia para Monza uma melhora de 20 a 30 cavalos. A Lotus decidiu retirar as asas da 72 após os treinos. O bólido sem asas era um míssil indomável. “Jochen estava ciente disto”, conta Blash. “Ele não entedia bem a engenharia do carro, mas ele sabia evitar carros difíceis de conduzir como ninguém.”

A roleta russa em Monza

John Miles, por outro lado, estava arrasado. O inglês interpelou o colega de equipe dele sobre como alguém poderia pilotar, a qualquer custo, num carro voador e tão criminosamente ruim, e pediu para Colin Chapman equipar o carro dele com asas. O que Mister Lotus rejeitou prontamente. Na equipe, se instalou por um bom tempo uma sensação desconfortável generalizada. Na época, Monza se resumia apenas às retas, às curvas de alta velocidade Curva Grande e Ascari, ao par de curvas de média velocidade Lesmo e Parabolica. A velocidade média ultrapassava os 240 km/h.

“Naquela época, a Fórmula Um era como uma roleta russa”, afirma Herbie Blash retrospectivamente. O primeiro treino confirmou os maus pressentimentos. Novamente, havia problemas com os discos de freio. O terceiro piloto, Emerson Fittipaldi, destruiu um carro num terrível acidente na Parabolica.

Acidente de Jochen Rindt em 1970.

A última luta pela ‘pole position’

No sábado, foi o primeiro a entrar na pista como de costume. Rindt esperava lançar os ataques dele contra os melhores tempos da Ferrari até o último minuto de treino, já quando o asfalto está mais frio. Os rumores de que, neste dia, ele havia expressado preocupação ao entrar na Lotus dele são negados por Blash. “Jochen tinha um forte caráter. Ele não tinha medo de opor a opinião dele à de Chapman. Se ele não se sentisse à vontade, ele não entraria no carro.”

Na quinta volta do treino, às 15h20 do horário local, o ronco do motor parou subitamente. Os boxes de então não eram ligados ao piloto via rádio, não havia uma comunicação imediata. Eles tinham de confiar nos relatos das testemunhas oculares. Denis Hulme sabia de algo. Ele estava imediatamente atrás da Lotus de Rindt, quando a cunha vermelha e branca subitamente desviou para esquerda na área de frenagem da Parabolica, atingiu uma barreira de proteção sob um poste de sinalização e então desapareceu rodopiando numa nuvem de poeira.

A caminho do hospital, Rindt sangrou até morrer

O primeiro impacto foi fatal para Rindt. Com medo de incêndio, Rindt havia se negado a apertar os cintos de segurança das pernas. A posição inclinada, quase para baixo, da Lotus dele fez com que ele escorregasse por baixo dos cintos peitorais e ventrais e desaparecesse do cockpit. Não havia nada que o segurasse. A dianteira da Lotus estava completamente destruída após o impacto com a barreira de proteção. A correia do cinto, o volante e o painel de instrumentos causaram ferimentos graves no tórax e na espinha de Rindt. A traquéia e a carótida se romperam.

Bernie Ecclestone ainda hoje acredita que o piloto dele teria sobrevivido com um resgate profissional, apesar das lesões graves. Quando Rindt finalmente chegou ao hospital, ele estava morto de tanto sangrar. A equipe Lotus deixou Monza o mais rápido possível. “Chapman tinha o acidente de Graf Berghe von Trips na memória, eles queriam o processar porque Trips tinha sido atingido por um piloto dele, Jim Clark”, diz Herbie Blash. “Nós tivemos de empacotar tudo, os garotos foram de caminhão para a Inglaterra e eu tive de levar a BMW de Jochen de volta à Suíça.”

Ecclestone cuidou de tudo

O homem que tratou de tudo no local foi Bernie Ecclestone. O hoje cabeça da Fórmula Um e sócio de Rindt. Ecclestone não gosta do termo “empresário” usado hoje. “Jochen era um amigo. Eu tomava conta dos negócios dele.” Enquanto que agora no mundo da velocidade outra estrela da Fórmula Um morria, após Bruce McLaren e Piers Courage, a vida tinha de continuar. Como sempre naquela época. A morte era um visitante rotineiro. A Lotus folgou uma corrida e avisou que voltaria no grande prêmio estadunidense com Emerson Fittipaldi e Reine Wisell. Ambos eram folhas em branco.

Rindt havia aberto 17 pontos de vantagem sobre Ickx após a vitória no Canadá. Ickx tinha de vencer os dois últimos grandes prêmios, dos Estados Unidos e do México, para superar o austríaco. Após a corrida de Watkins Glen, o sonho acabou. O belga foi apenas o quarto colocado. Emerson Fittipaldi venceu a primeira dele em quatro participações, a melhor corrida dele da temporada, e Wisell terminou num sensacional terceiro lugar. Com isto, Rindt conquistou oficialmente o título.

“Para mim”, avalia Blash, “Jochen foi o corredor completo. Um piloto instintivo, com um domínio incrível do carro e uma personalidade forte. Um cara que ficou na memória de todos os que o conheceram.”

Auto Motor und Sport, 5 de setembro de 2010.

Tradução  por Alexandre Pires de “Der Tod eines Formel 1-Popstars”.


comentários
  1. Speeder_76 disse:

    Belo post, para ser honesto.

  2. Mari Espada disse:

    Alexandre, parabéns pela excelente abordagem sobre a vida (e morte) de Jochen Rindt.

    Em sua história, me impressiona o fato dele ter ganhado o WDC postumamente.
    Isso é como um alerta aos pilotos que brigam pelo título. É uma pergunta que ecoa nos ouvidos: até onde você vai para alcançar o seu objetivo?

    OBS. É chato quando um post novo vem parar em uma data antiga! Eu demoro para vê-los!

  3. Obrigado, Speed! Vi isto lá no automotorundsport e achei muito bonito. Aí quis trazer aqui pra nós.

    Mari, coloquei nesta data por ser a do aniversário da morte e também por ter combinado postar assim com o Claudemir.
    Vamos ver, qualquer coisa o Claudemir muda se achar melhor.
    Quanto ao texto, também achei muito bonito, tinha de trazer aqui pra nós. Infelzimente, não consegui ver quem do automotorundsport escreveu. Assim que achar credito a pessoal e não só a revista.

  4. Alex-Ctba disse:

    Muito comovente esse relato. Valeu por trazer para nós essa triste, porém importante passagem da F1. Muito oportuno.

    Abs

  5. Lucas Domakoski disse:

    Grande texto. Rindt foi um gênio das pistas, e merece sempre ser respeitado e lembrado. Obrigado por trazer o texto até nós, Alexandre!

  6. Will disse:

    É uma história sensacional, qual o preço do sucesso?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s