Schumacher e Alonso: do Kaiser ao Emperador da Ferrari

Publicado: 13/09/2010 por Alexandre Pires em Artigos, Fotos
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O grande prêmio italiano de MMX marca o Risorgimento ferrariano. Algo para muito além da temporada, pois não se resumiu a isto apenas. A Ferrari, enfim, recuperou a verve vitoriosa.

O Kaiser alemão havia abdicado o trono da Scuderia em nome de dois pretendentes, um legítimo e outro bastardo. Não vimos qualquer coroação. Nada de Imperador. Nada de Keisari. Três anos se passaram.  E com pompa e circunstância o herdeiro se revelou. Não um herdeiro qualquer, mas um que já havia se feito nas pistas contra o velho Kaiser. É assim que as coroas são trasmitidas no regno della velocità. E na península italiana o príncipe spagnolo se sagrou Emperador! É uma inversão da Spagna romana de outrora, antigo domínio dos romanos sobre a península ibérica que agora aparece com um domínio de um espanhol sobre a península italiana.

O poder de auspício do velho oráculo Montezemolo se revelou inigualável. Ao pender o trevo sobre a fronte do piloto spagnolo em detrimento do brasiliano, o oráculo previa acertadamente com qual dos pilotos estava o destino do império. O favorecido se mostrou merecedor de todos os favorecimentos. A sorte serve os fortes. Bravissimo! Ferrari!

A batalha dos italianos, vindos da província de Ferrari, contra a invasão da península de Monza pelos britânicos e austríacos foi dura. A derrota foi dada como certa desde sempre. A VI-Feira e o sabato não foram muito animadores, ainda que não tivessem baixado o moral da esquadra vermelha. O spagnolo revelou aos tifosi que um dos carro testou com muito combustível. Bom sinal.

Os britânicos da McLaren pareciam confiantes. Se davam ao luxo de experimentações de táticas de corrida. Algo que ninguém fazia. Estavam convencidos de que venceriam, de um modo ou de outro. E de dois modos distintos foram para a pista de batalha.

Os austríacos da Red Bull, dados como mortos, se insinuavam mais vivos do que nunca. O filho vindo das terras do norte, um alemão, figurava entre os mais velozes dos competidores. Pilotava um carro até então imbatível em curvas como se este acabasse de ter sido refeito para rasgar retas. Os menos desavisados devem ter suspeitado de brefe. Coisa de gladiador orgulhoso.

Mas, ao chegarem na penúltima prova do fim de semana, o spagnolo se impôs com uma volta incredibile, cronometrada em I:XXI,CMLXII. O Coliseu de Monza veio abaixo. Os tifosi, gentílico do cidadão da província de Ferrari, enlouqueceram, sono matti, erano pazzi. A edumentária vermelha vibrava no tempio della velocità. Mas a ameaça britânica estava à espreita. Os austríacos haviam tombado, mas não completamente. A batalha final, a última prova, estava marcada para o dia seguinte.

Chegou o dia derradeiro, Domenica, os carros se alinham nos grampos de largada. Alonso. Button. Massa. Webber. Hamilton. Vettel. E mais XVIII pilotos. O quinteto de luzes vermelha se apaga. Os bólidos arrancam do Rettifilo Tribune. O spagnolo e o britannico se digladiam no lado sujo da reta. O brasiliano se avantaja com a situação. Busca seu botim de guerra. O secondo britannico salta uma posição e encosta no brasiliano.

A Variante del Rettifilo cresce no fim da reta. Os pilotos não se importam. Continuam a acelerar. Mas a física é inexpugnável. A série de freadas começa. Momento tenso. E determinante. O britannico vence o primeiro duelo com o spagnolo. Entra à frente na Variante. O spagnolo agora se preocupa com o colega brasiliano. Seguem emparelhados. Contornam a Curva Biassono. O secondo britannico se avoluma com um carro ajustado para retas.

Button assume a ponta na Variante del Rettifilo, Monza, MMX.

A Variante della Rogia já está logo à frente. O britannico passa solitário por ela. A dupla estrangeira italiana trava uma contenda doméstica. O secondo britannico quer sobrepujar dois num único lance. Pura pretensão. O spagnolo se livra do brasiliano. O brasiliano se livra do secondo britannico. O secondo britannico se enfia onde não devia e quebra a suspensão. Erro. Enorme. Já havia vencido a batalha que a ele dizia respeito. A batalha contra o austríaco vindo da Austrália. Afoito. Imprudente. Pueril. A única prova de que alguma maturidade paira naquela cabeça descontrolada foi a declaração de que ele havia sido o único responsável pelo erro crasso cometido por ele e que isto podia custar mais que pontos perdidos.

Tudo começa a se definir a partir daí. O spagnolo cola no britannico. O brasiliano se descola do spagnolo. Esta situação dura até a parada para troca de pneus.

Enquanto isto os austríacos da Red Bull fazem uma corrida de recuperação. Trocam posições cordial e dissimuladamente entre eles. O austríaco da Austrália ganha com dificuldade e muito mérito duas posições após parar para trocar pneus. Está um pouco atrás do austríaco da Alemanha, que ainda não parou e continua atrás de um vão maior entre ele e o colega de equipe. Parece contrariado por ter entregue a posição ao colega e a quer de volta. Quando consegue um vão de XXII segundos, entra para os boxes e sai de lá à frente do colega, que deve ter engolido seco o revés, e do carro que separa os dois. O golpe foi, além de tudo, uma cópia alemã do original australiano. Questa è la vita!

Bem antes, o britannico faz a parada dele. Troca os pneus. Um pouco depois, o spagnolo faz a parada dele também. Troca os pneus. Sai para pista e se dirige para a Variante del Rettifilo. Enquanto isto, o britannico passa pela Rettifilo Tribune. Um vê o outro. Sem susto, o spagnolo chega na Variante del Rettifilo adiantado ao brittanico e toma deste a ponta da corrida. Mais atrás vem o scudiero brasiliano. Estes são os pilotos que fazem o pódio do grande prêmio italiano. Bravo! Bravissimo! Spagnolo!

Alonso retoma a liderança de Button após a parada, Monza, MMX.

Alonso brada “veni, vidi, vici”. E, além de vencer, igualando assim o pentacampeão Juan Manuel Fangio em XXIV vitórias, fez a volta mais rápida da prova e fez a pole. Tirou o coelho da cartola. Já havia vencido Monte Carlo duas vezes, Silverstone uma e agora venceu Monza pela segunda vez, só falta ainda vencer Spa. Com isto, terá se consagrado nos IV circuitos clássicos da Fórmula Uno.

Habemus Imperatorem!

Emperador Alonso da Província de Ferrari.

Alonso no topo do pódio em Monza, MMX.

comentários
  1. Allan Wiese disse:

    Que grande riqueza de escritos e estilos temos aqui neste blog!
    Belíssimo relato Alexandre…

  2. Eduardo De Campos disse:

    Excelente texto, realmente!
    Só acho uma pena que enalteça tanto o Império Rosso que tem nos dado tantas vigarices nos últimos tempos.Agora a quadrilha está completa com Don Alonso, o Trapaceiro das Astúrias…

    • wilson costa disse:

      jogos de xadrez costumam ser bem justos

      • wilson costa disse:

        ah! ia esquecendo.
        não esqueceu o mclaren gate de 2007 não né?
        você juraria de pés juntos, mão em cima da bíblia que lá pelos lados da redbull eles tão tudo certinhos com seu carro, sem nenhuma traquitana para dar vantagem?
        se voce conseguir, então pode ser promovido a xerife da liga de justiça formoliana

  3. Mari Espada disse:

    Alexandre,

    Com esse maravilhoso post me transportei para os textos de Sófocles. É incrível o poder das palavras, não?
    Muito obrigada pela experiência. E parabéns pelo texto!

    Só achei muito pesado o termo: “A única prova de que alguma maturidade paira naquela cabeça descontrolada foi a declaração de que ele havia sido o único responsável pelo erro crasso cometido por ele e que isto podia custar mais que pontos perdidos.”

    O Hamilton errou sim! Eu não vou negar! E eu xinguei muito sim! Mas no fundo, é essa montanha russa de emoções que desperta a paixão de seus fãs. E é essa mesma montanha russa que o fez perder o título em 2007, mas ganhar em 2008… A vida é assim! E eu me identifico com ele!
    O próprio Senna (o Ayrton) nunca foi um piloto de “administrar pontos”, tem declarações dele dizendo que em uma corrida o seu foco é vencer! (quando chegar em casa vou transcrever aqui uma frase de um livro do Senna que estou lendo atualmente) E é claro que seus fãs sofriam com as consequências de uma decisão impulsiva, mas isso fazia parte do show!
    Vejo muito disso no Hamilton… e pode chamar como quiser, imaturidade, instabilidade, descontrole, loucura, pois apesar de tudo todas essas características passionais são esperadas em um grande piloto! A questão é conseguir atingir o equilíbrio!

    Beijos!

    • claudio cardoso disse:

      Mari.

      QUando eu li esse pedaço, eu na mesma hora pensei em voce lendo isso, e no contraditorio .

      Bom dia ai !!!

      • Mari Espada disse:

        Sabe Claudio, isso é engraçado…

        Alguns amigos me ligaram ou mandaram mensagem de texto para dizer que lembraram de mim quando viram o Hamilton abandonando a prova em Monza.
        Até o Ronei, que comenta aqui no blog, deixou um comentário no meu texto sobre a corrida, dizendo que lembrou de mim quando o Hamilton quebrou.
        Agora você me diz que lembrou de mim quando leu esse trecho do texto do Alexandre.

        Dessa forma eu só posso concluir uma coisa: se o meu nome está virando sinônimo de Hamilton, é porque estou ficando muito fanática!!! Muito mais doque sempre fui!!! =D
        E o culpado disso só pode ser o Ultrapassagem! Que invadiu a minha vida e conquistou meu coração! Pois agora, quando não estou pensando em arquitetura, estou pensendo em Fórmula 1! Hehehe.

        Então, só posso dizer obrigada à todos que fazem esse blog ser assim: maravilhoso!!!

    • Mari Espada disse:

      “Com o tempo, o preparador [Lúcio Pascual, conhecido por Tche] tentou explicar a Senna que, às vezes, você tem de pilotar com tática e prudência, mas Senna rejeitou aquilo. Disse que pilotava para vencer, nada além disso, sempre, e conservou essa atitude por toda a carreira”

      Trecho do livro Ayrton Senna – uma lenda a toda velocidade, de Christopher Hilton.

  4. Alex-Ctba disse:

    Bela crônica Pires. Gosto muito desse seu estilo de resumir uma corrida, contando uma estória. Faltou as dos GPs da Hungria e Bélgica.

    Eu sei q o q importa é o resultado e Alonso foi perfeito nesse fds e fez a sua parte na pista magistralmente, mas ele deve a vitória ao trabalho estupendo dos mecânicos na troca, q foram oito décimos mais rápido do q os da McLaren. Caso contrário estaríamos lendo uma crônica sua sobre o mineirinho…

    • wilson costa disse:

      mêcanico não conta não? puxa vida.
      alonso deve estar pensando… “puxa vida… não fosse aquela williams me albarroando na bélgica poderia ser lider hoje”

      • Alex-Ctba disse:

        Sim, por isso q amamos este esporte, pq apesar dos bastidores sórdidos, tem muita emoção ainda nas pistas.

        Minha observação foi só pq o Alexandre no seu belo texto, na minha opinião, faltou enaltecer um pouco mais o trabalho da equipe, em contraponto ao louvor feito ao espanhol.

  5. claudio cardoso disse:

    Parabens pelo belo texto.

    QUe criatividade, e bela correlação com os fatos historiscos.

    Esse review foi 10

  6. Will disse:

    Eu ainda vou ver o Alonso ultrapassar o Hamilton esse ano…mas na pista.

  7. allan,
    obrigado!

    eduardo de campos,
    obrigado! realmente deixei de lado o externo à pista intencionalmente porque no fim, como em todos os esportes, o que fica é a vitória. tá aí o schumacher que não nos deixa mentir. alonso e ferrari mereceram e muito este risorgimento.

    mari,
    obrigado. olha, nem em dez vidas daria pra beirar sófocles. você é muito gentil. mas o texto foi só uma brincadeira mesmo com este momento completamente italiano da fórmula um.

    alex,
    valeu mesmo! bom saber que você curte estas tiradas. ontem, até comentei com o claudemir a sua crítica. e não fiquei surpreso, pois sei que você é muito atento a isto. mas, como disse pro boss, eu não enalteci os mecas porque eles não foram os mais rápidos, salvo engano. acho que os mecas de vettel foram mais rápidos. fiquei com a impressão que foi mais deficiência da mclaren do que excelência da ferrari. sei lá.

    claudio cardoso,
    muitíssimo obrigado. bom saber que apreciou. você é um comentador muito apreciado por aqui também. só enriquece o blog.

    will,
    entendo o seu comentário da seguinte maneira: como eu, você quer rever em 2010 o duelo entre alonso e hamilton de 2007. pra mim, é a rivalidade da nova fórmula um. mas que a ida de alonso pra então fraca renault impediu de reeditar em 2008 e 2009. tomara que 2010 ainda nos proporcione este pega. mas com certeza 2011 vai nos proporcionar.

  8. Will disse:

    Isso mesmo Alexandre, na Austrália eu fiquei frustrado com o Webber, que impediu o Lewis de colocar de lado…vai ser inevitável um novo encontro até o final do ano.

  9. wilson costa disse:

    o alonso pode até não ser campeão este ano, mas ele termina a frente do inglês. Alonso le e a ferrari deram muita bobeira esse ano.
    Mas a cota de erros e azar do rã-miltu ainda não terminou e ele ainda vai errar mais uma vez até fim do ano.
    Se alguém por aproveitar mais os pontos vai ser campeão, então deverá ser o webber.

  10. Vitor, o de Recife disse:

    Começando a descontar o atraso de uma semana… e já vi que perdi muita coisa boa.

    Belíssimo post Alexandre, muito criativo e, consequentemente, com muita identidade.

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