Tradição no automobilismo: Le Mans.

Publicado: 03/10/2010 por Mari Espada em Artigos, História da F1
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Quando pensamos em circuitos tradicionais no automobilismo, Le Mans sempre está no topo da lista, junto com Laguna Seca, Indianápolis e até mesmo a minha amada Nürburgring, dentre outras.

E como sempre, falar em tradição e história aguça a minha curiosidade. O que acabou resultando neste humilde texto que, com certeza, será muito bem complementado pelos excelentes comentaristas do Ultrapassagem.

CIRCUITO DE SARTHE

Le Mans é uma cidadela francesa às margens do rio Sarthe, que oferece seu nome ao Circuito de Sarthe, cujo asfalto abriga, desde 1923, a corrida de resistência para carros desportivos e protótipos: a famosa prova 24 horas de Le Mans, uma das mais tradicionais corridas automobilísticas do mundo.

Grande parte do Circuito de Sarthe é composto por estradas nacionais, que são temporariamente fechadas durante as corridas.

Porém, desde 1923, o traçado vem sendo constantemente modificado por questões de segurança, sendo que atualmente ele possui 13,629 km de extensão, dos 17,262 km originais.

Tais modificações foram criando as passagens mais célebres do circuito, como a curva Dunlop, a Tertre Rouge e a reta Mulsanne, que a partir de 1990 ganhou duas chicanes, reduzindo de 5 km (onde os protótipos mantinham uma velocidade de mais de 400 km/h durante um minuto) para os 2 km então permitidos pela FIA.

Essa medida foi necessária porque alguns automóveis, insuficientemente carregados aerodinamicamente, ao atingirem maior velocidade tinham tendência de levantar voo nesse trecho da reta. Além disso, devido às irregularidades da pista, os pneus eram submetidos a pressões muito intensas, que os levavam a deformações extremas e ao rebentamento se não estivessem em boas condições. A situação era ainda pior caso esse tipo de situação acontecesse de noite e em meio a carros de GT, que rodam cerca de 100 a 150 km/h mais lentos.

O voo da Mercedes-Benz CLR de Mark Webber, na reta Mulsanne, em 1999

Com isso, visando evitar acidentes, duas chicanes passaram a interromper a reta, reduzindo a velocidade média do circuito de 249 para 243 km/h. Mas em 2008, os novos carros conseguiram atingir 247 km/h, não muito distante do melhor de todos os tempos de 250-251 km/h definidos pelo Porsche 917 e 956 ainda no velho traçado.

Apreciem o Porche 956 na antiga Sarthe, antes das chicanes na reta Mulsanne:

E foi graças aos 5 km da Mulsanne que o Circuito de Sarthe tornou-se famoso por uma reta, e não por uma curva como é mais comum de acontecer.

A primeira chicane da reta Mulsanne, as zebras permanecem após a corrida

A Mulsanne é tão famosa que inspirou a equipe WM Peugeot, em 1988, a inscrever-se com um carro chamado “Projeto 400”, que tinha por objetivo atingir 400 km/h na famosa reta, já que tinham a consciência de que seu carro não venceria a corrida de resistência de 24 horas, mas que possuía um aerodinâmica muito boa para enfrentar a velocidade da Mulsanne.

O plano deu certo, com Roger Dorchy atrás do volante, o WM P87 alcançou a velocidade de 407 km/h.

Projeto 400 - WM P87

É uma pena que hoje em dia a sensação dos intermináveis 5 km da Mulsanne vive apenas na lembrança de quem teve a oportunidade de pilotar na antiga Sarthe.

Mas a fama dessa reta atravessa as décadas, viva através dos games de corrida. É o futuro reverenciando o passado!

Uma volta com um Bugatti Veyron no game Forza 3, atingindo 422,9 km/h na Mulsanne:

CIRCUITO DE BUGATTI

Dentro do Circuito de Sarthe está o Circuito de Bugatti, um autódromo permanente com 4,272 km, onde se realizou o GP da França de Fórmula 1 em 1967, e que desde 1995 abriga as provas de MotoGP anualmente.

Na categoria MotoGP  a Yamaha de Valentino Rossi, detém o recorde da volta mais rápida de Bugatti, com 1’34.215 em 2008.

O traçado de Bugatti utiliza uma parte do Circuito de Sarthe, desde a chicane Ford, passando pela curva Dunlop e terminando no Esses.

Vista aérea do Circuito de Bugatti

Com curvas lentas, o Circuito de Bugatti é geralmente considerado como um travado “stop and go”. Mas para equilibrar, também possui uma das curvas mais rápidas do calendário da MotoGP, a Dunlop Curve, ao final da reta principal.

Reta dos boxes do Circuito de Bugatti

Essa pista francesa é uma das menos técnicas, sendo que seu primeiro setor é o mais complicado, onde a curva de alta velocidade é seguida de uma sequência de chicanes apertadas. Os demais setores da pista são feitos de pequenas retas e hairpins, o que exige equilíbrio do carro e controle do piloto, para transferências rápidas de frenagem para aceleração total na saída das curvas.

Sinta isso com o Mercedes CLR pilotado por Christophe Bouchet, Nick Heidfield e Peter Dumbreck em 1999:

24 HORAS DE LE MANS

Em 1920, o Automobile Club de l’Ouest pôs em obra a realização de uma competição cujo caráter contribuísse para a evolução do progresso técnico e desenvolvimento do automóvel.

Assim, em 1922, o clube anunciou a criação de um novo tipo de competição no Circuito de Sarthe, uma prova de resistência com duração de 24 horas. Essa prova seria capaz de alavancar o desenvolvimento de carros não apenas rápidos e inovadores, mas também muito confiáveis, assim cumprindo o seu papel de contribuir também com inovações e tecnologias aplicáveis aos automóveis comuns.

Cartaz da primeira prova 24 Horas de Le Mans

A primeira edição, com 33 concorrentes, desenrolou-se nos dias 26 e 27 de Maio de 1923, e atualmente, a 24 Horas de Le Mans ocorre anualmente no mês de Junho. Sendo, dessa forma, a mais antiga e a mais prestigiada corrida de resistência para carros desportivos e protótipos.

A famosa reta Mulsanne do Circuito de Sarthe

Originalmente, não havia regras sobre o número de motoristas em um carro ou por quanto tempo eles podem dirigir. Então fazia parte da estratégia da equipe a redução do revezamento entre os pilotos, para poupar tempo.

Mas atualmente os pilotos devem obedecer a regra de não dirigir mais de 4 horas consecutivas, e mais de 14 horas no total, aumentando assim a segurança dos participantes da competição.

À esquerda os boxes de Sarthe e à direita os de Bugatti

Também fazem parte das regras da 24 horas de Le Mans que os motores devem ser desligados durante o reabastecimento. O que acabou favorecendo indiretamente o método da Porsche de dar partida no carro pelo lado esquerdo do volante, para que o piloto pudesse ligar o carro e engatar a marcha simultaneamente, oferecendo vantagem de alguns décimos de segundo na saída dos boxes.

Os carros que correm nesta prova estão divididos em quatro categorias:

Categoria: LMP1 (Le Mans Protótipos 1, antiga LMP900) – Foto: Aston Martin

Categoria: LMP2 (Le Mans Protótipos 2, antiga LMP675) – Foto: Porsche RS Spyder

Categoria: LMGT1 (Gran Turismo 1) – Foto: Aston Martin DBR9

Categoria: LMGT2 (Gran Turismo 2) – Foto: Ferrari F430 GT2

Com essas 4 categorias (mais a MotoGP) acelerando em sua pista nesses 87 anos, Le Mans tem muita coisa pra contar… e cada uma delas certamente daria uma pesquisa, um texto e um post à parte.

Mas por enquanto quero ouvir as histórias de vocês na sessão de comentários, logo após esse vídeo da briga entre a Ferrari de Jaime Melo (82) e do Corvette de Oliver Gavin (64) na 24 horas de Le Mans deste ano, só para inspirá-los:

NOTA: Conforme alerta do Fernando Kesnault, a famosa reta de 5km tratada neste texto e na maioria dos artigos publicados como Muslanne, na realidade chama-se Hunnadieresl, sendo que Muslanne refere-se à primeira curva após a reta.

Fonte: Wikipedia

comentários
  1. Mari Espada disse:

    Dentre as diversas de histórias de Le Mans, as que mais me impressionaram foram:

    A clássica largada, onde os pilotos ficam fora do carro e, quando a bandeira francesa é agitada atravessando a pista, todos correm , entram em seus carros e dão partida! Uma loucura!!! Por isso a partir de 1960 as largadas passaram a ser a que conhecemos hoje.

    O tenebroso hiato sem a prova de 1939 até 1949, devido à Segunda Guerra.

    O enorme acidente de 1955 quando Pierre Levegh bateu seu carro e milhares de peças voaram através da arquibancada, matando uns 80 torcedores.

    E a saída da Mercedes depois dessa tragédia, impedindo uma linda batalha entre a Mercedes W 196 e o Lancia D50, como retratou o Sirlan de forma espetacular em seu texto: https://ultrapassagem.wordpress.com/2010/10/02/dois-carros-maravilhosos-e-um-duelo-que-nunca-existiu/

  2. Alex-Ctba disse:

    Mari, belo artigo! Muito bem escrito. Foi ótimo conhecer a história de Le Mans. Qdo. o Kesnault tinha comentado q os carros passavam de 400 km/h eu achava q ele estava exagerando, até ler em detalhes este teu artigo. Parabéns pela riqueza de informações e detalhes.

    • Mari Espada disse:

      Muito obrigada Alex! =)

      Repare no vídeo que nessa reta, ao ultrapassar os 400km/h e mantê-los durante 1 minuto, dá a impressão que a marcha do carro quebrou… o motor pede mais e mais, porém não há mais marchas a oferecer! O som constante é engraçado!

  3. Fernando Kesnault disse:

    Excelente texto Mari (sempre esforçada e criativa). Quanto à reta Hunnadieresl (5 km) ela ainda existe e é utilizada só que existe duas chincanes para quebrar as velocidades que são aquelas do desenho maravilhosamente ilustrada pela Mari. Particularmente sou um felizardo por conhecer esta prova pessoalmente e amo estas corridas de longa duração, pois atração não falta no circuito tanto de madrugada quanto de dia para quem gosta de conhecer novidades extrapista. Um abraço a todos.

    • Mari Espada disse:

      Obrigada Fernando!
      Um elogio vindo de você, um mestre da história do automobilismo, sinto-me honrada! =)

      Então a reta com 5km chama-se Hunnadieresl, e agora quebrada com duas chicanes passou a chamar-se Mulsanne? Porque nas fontes que pesquisei não havia citação desse primeiro nome…
      Se eu entendi certo a sua observação, vou ter que corrigir esse detalhe no texto! Você pode me confirmar se é isso mesmo?

      Thanks!

      • Fernando Kesnault disse:

        Sim Mari tenho certeza absolluta que ela tem o nome de “Les Hunnaudieres” (pronuncia-se hinôdieres) e Mulsanne (pronuncia-se milsane, quase com o “e” mudo) é somente o nome da curva após esta grande reta. Talvez alguns jornalistas e escritores se confundem pois não tem uma convivencia tão intima com o circuito qto. parece.

      • Fernando Kesnault disse:

        Se quiseres lhe envio uma foto com uma placa a indicar o nome da reta Les Hunaudieres.

      • Mari Espada disse:

        Inseri uma nota no final do texto com a sua observação. Obrigada!!!

  4. Sirlan Pedrosa disse:

    Mari,

    Muito bom e oportuno o texto.

    Hoje a categoria endurance vive uma fase apagada muito em função do trabalho de Bernie Eclestone a partir dos anos 80, canalisando todos os recursos e atenção para a F1.

    Até a década de 70 os carros que corriam em Le Mans muitas vezes rivalizavam com os bólidos da F1 na atenção e paixão dos fãs.

    Temos também muitas histórias associadas a essa pista, grandes passagens do automobilismo.

    Aproveitando o post de Rodrigo sobre o filme Grand Prix, existe o filme “As 24 Horas de Le Mans” que também é muito bom, estrelado pelo ator Steve Mcqueen, que também era piloto nas horas vagas.

    Um abração,

    Sirlan Pedrosa

    • Fernando Kesnault disse:

      Sirlan, creio que estamos vivenciando uma ascensão daas categorias esporte prototipos a partir deste ano com a entrada de várias eequipes de renome e teremos no ano que vem a Le Mans Intercontinental que correrá em Europa, America do Norte e Asia. Particularmente adoro esta categoria e então sou suspeito, pois aprendi a gostar de automobilismo com a famosa Mundial de Marcas e depois com a Can-Am.

    • Mari Espada disse:

      Obrigada Mestre!!! =)

      Então este é mais um filme para eu colocar na minha lista…
      Pois vou querer assistir com certeza!

      Beijos!

    • Alex-Ctba disse:

      Já fala pro Rodrigo preparar um post sobre esse filme então Sirlan. Esse eu não assisti.

  5. Allan Wiese disse:

    Parabéns Mari!

    Quando ouço o nome Le Mans, lembro que a Porsche ainda é detentora da marca de maior vencedora da corrida de 24 horas. Sou fã da marca e gosto muito da história da família de Ferdinand Porsche.

  6. Le Mans, um nome tão ligado ao automobilismo quanto a tradicional Ferrari, é engraçado, que quando eu penso em equipe eu penso em Ferrari, já quando eu penso em autodramo, pista corrida vm na cabeça Le Mans, muito bom seu texto Mari, show de bola, muitos detalhes e que fotos… o acidente de Webber é uma fotografia fantastica.

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