A opinião de um veterano…

Publicado: 06/10/2010 por Mari Espada em Formula1, Notícias
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Em entrevista à ESPN, Stirling Moss, uma lenda do automobilismo inglês, comentou sobre todos os aspectos que envolvem a luta pelo título neste final da temporada 2010 de Fórmula 1, utilizando como base sua vasta experiência de 15 anos no automobilismo, com 212 vitórias de 529 corridas realizadas.

O texto que segue é uma livre tradução dessa entrevista. Aproveite a leitura e depois deixe sua opinião na sessão de comentários.

“Seria necessário ser um apostador profissional para escolher um campeão do mundo com as quatro corridas que ainda restam, e isso é algo brilhante para o esporte. Não me surpreenderia se for Mark Webber, ou então Fernando Alonso, mas a verdade é que poderia ser qualquer um dos cinco melhores.

É claro que alguns circuitos favorecem uma ou outra equipe, e durante a minha carreira eu não pilotei por estes autódromos, então não posso dar uma opinião quanto à isso. Mas eu sei como é superar um desafio por um campeonato mundial, e posso falar com certeza que este título será decidido pelos pontos fortes e fracos de cada piloto.

Atualmente quem está liderando é Webber. Eu acho que ele tem feito um grande trabalho para chegar onde ele está agora, e eu tenho toda a confiança que ele e sua equipe estão tranqüilos com a vantagem que abriram, mas o campeonato ainda não acabou. Devo dizer que ele tem sido muito consistente em suas últimas corridas, e com o abandono ou não pontuação dos adversários, isso é fundamental nessa fase final. Sua experiência está sendo valiosa neste momento, apesar de ele nunca ter estado em posição de defender um título em sua carreira. Eu continuo achando que ele possui uma chance de ouro.

Seu adversário mais difícil é Alonso. O piloto da Ferrari fez um trabalho excepcional nas últimas corridas e agora ele está tão confiante quanto estava no auge de sua carreira, e faz honrar o bicampeonato que  conquistou. Vale lembrar que a diferença é de apenas 11 pontos entre os dois primeiros, sendo que no sistema antigo de pontuação seriam apenas 4 ou 5 pontos. Portanto mesmo que você não julgue que a Ferrari está à altura da Red Bull, você precisa ser um homem muito corajoso para apostar contra Alonso. Todos nós sabemos quão boa a Ferrari era em ganhar títulos na era Schumacher, e eu penso que podemos estar assistindo o ressurgimento disso com Alonso.

Agora, eu sei que se a Ferrari levar o título muita gente vai questionar o GP da Alemanha e rotular o campeonato como manchado. Mas eu não concordo com nada disso. Admito que a forma da Ferrari tratar este caso foi bastante sujo, mas acho que no futuro haverá uma decisão muito mais liberal quanto às ordens de equipe, e vamos olhar para trás em 2010 no GP da Alemanha como uma irregularidade nas regras, ao invés de algo mais sinistro por parte da Ferrari.

Em terceiro lugar temos Hamilton, que parece ser um piloto muito infeliz se analisarmos apenas este momento. Nas últimas duas corridas ele se envolveu em situações que ele poderia ter poupado e que custarão caro para ele. Em Monza ele tentou ansiosamente ultrapassar Massa, culminando em um acidente que nunca deveria ter acontecido. Eu gosto bastante de sua abordagem agressiva de pilotar e competir, mas neste cenário eu teria preferido vê-lo acalmar-se na primeira volta para, mais tarde, mostrar o piloto que nós sabemos que ele pode ser.

Ele está inclinado à ser muito duro muito cedo, e nós vimos isso novamente em Cingapura, quando ele tentou uma ultrapassagem em Webber imediatamente após a retirada do Safety Car. Não há nada de errado em aproveitar as oportunidades quando elas surgem, mas ele deveria ter calculado que em ambos os casos havia uma chance muito alta de não conseguir.

Mas olhando para as suas reais possibilidades nesse campeonato, não devemos esquecer que o Hamilton e a McLaren formam um time muito forte na Fórmula 1. Eles são muito capazes de vencer as quatro corridas finais, mais do que qualquer outro time, mas a diferença entre ganhar e perder o campeonato para Hamilton está em aproveitar os erros cometidos pelos seus adversários.

Outro piloto que cometeu alguns erros durante a temporada foi Vettel. Com um talento natural, eu diria que ele tem vantagem sobre Webber, mas Webber é um piloto racional, que compensa sua velocidade com estratégia. Para comprovar basta analisar que Vettel conquistou 7 poles neste ano, mas converteu apenas 2 vitórias, enquanto Webber conquistou 5 poles e 4 vitórias.

Ele é um piloto impetuoso como Hamilton, e os dois precisam ter muita força de vontade para não agir conforme seus instintos. Eles precisam aprender a esperar as oportunidades virem até eles ao invés de tentar alcançar o impossível. O problema é que para todos os pilotos a corrida mais importante do mundo é a que acontece hoje.

Mas, assim como Hamilton, eu não gostaria de vê-lo perder a impetuosidade completamente. Pois essa é uma característica importante para os pilotos, pois na maioria das vezes não há tempo para pensar. Isso foi algo que eu tive que controlar durante toda a minha carreira e, posso dizer que, encontrar o equilíbrio é algo extremamente valioso.

Finalmente temos Button, que é um piloto rápido e estável. Mas o seu verdadeiro talento este ano tem sido a capacidade de manter a cabeça limpa e tirar o máximo de partido das oportunidades que surgem. Ele olha para coisas como mau tempo e Safety Cars como uma vantagem que pode obter sobre os adversários. Sua decisão de ir para o pit na Austrália, seus cuidados para preservar os pneus na China e sua decisão de usar o F-duct em Monza, eram decisões típicas do Button e eu não acho que já tenhamos visto esse tipo de decisão clara e assertiva vinda dos outros pilotos.

Mas isso também significa que ele está contando com essas decisões para ganhar o campeonato, porque seu ritmo de corrida não é suficiente para compensar a diferença de 25 pontos para Webber. Claro que o lado positivo é que se alguém vai fazer milagre com uma gota de chuva ou um cenário inesperado, esse é Button.

Assim, entre cinco pilotos e um título, minha única preocupação é que garantir o campeonato mundial pode vir a atrapalhar a qualidade das corridas. Nós todos vimos pilotos correndo por pontos e não por vitórias ao longo dos anos, e na minha opinião isso não é automobilismo.

Na minha carreira eu sempre corria para vencer e vou admitir abertamente que me custou alguns campeonatos. Olhando para trás eu era meu pior inimigo, mas eu não me arrependo das minhas decisões. Eu sou um piloto e eu estava lá para me divertir, e para mim não há prazer na corrida sem a luta por posições e a luta pela vitória.

Para mim é claro que o caminho para resolver esse problema é a introdução do sistema de medalhas proposto por Bernie Ecclestone, onde o piloto com mais vitórias no final da temporada leva o campeonato. Eu acho que, à primeira vista parece uma péssima idéia, mas que essa rejeição deve-se principalmente ao fato de nós não gostarmos de mudanças no esporte. Eu acho que se fosse feito com cuidado e inteligência, e com a aprovação dos pilotos e equipes, que isso só iria beneficiar a Fórmula 1.

Mas isso é tudo para o futuro. Por hora vamos esperar que os pilotos continuem dando duro até a última corrida deste campeonato.”

comentários
  1. Allan Wiese disse:

    Opinião de quem sabe.

    Senti uma semelhança entre o que Moss disse e o que Hamilton gosta de dizer em relação à sua paixão por correr: o objetivo é sempre vencer…

    E com relação às medalhas, ainda acho muito complicado. E mesmo que o sistema seja implantado, não vai trazer tantas mudanças assim: digamos que o primeiro colocado do campeonato tenha 4 vitórias e 2 segundo lugares e o segundo colocado do campeonato tenha 3 vitórias e 2 segundo lugares. Na última corrida do ano, o segundo do campeonato está em 1º lugar e o primeiro colocado está em segundo lugar. O líder iria ficar quietinho no lugar dele nesse sistema também, porque ao fim da corrida ambos teriam 4 vitórias (ouros), mas o líder teria um segundo lugar a mais (prata).
    Não muda praticamente nada em relação ao sistema atual.
    E piora, porque os outros carros tem menos chances ainda de pontuar…

    • Mari Espada disse:

      E também muito parecido com o que o Senna dizia, Allan…

      Sobre o sistema de medalhas, para mim o mais complicado seria que, provavelmente, as equipes “do fundão” iriam acabar por desistir de participar da F1… pois quem não estiver com chances de brigar pela vitória, não seria nem beneficiado pelo premio que hoje há para o décimo colocado, por exemplo. Então para que investir milhões em algo sem retorno?
      No fim das contas seria um campeonato de Ferraris, McLarens e Redbulls… e cairia por terra a idéia de ter 13 equipes no grid…. com isso podemos perceber que o gagá do Bernie não pensou em quão contraditória pode ser resultado dessas suas duas idéias, né?

    • Laysson disse:

      Ótimo texto. Moss é um daqueles campeões que raramente falam, e quando falam acaba sendo muito gostoso de se ler. Comentários muito sensatos, e sem fugirem à realidade. Não me agrada muito o sistema de medalhas por dar algo próximo da totalidade da importância nas vitórias. Concordo que seja algo à ser discutido e pensado exaustivamente, tendendo na minha opinião em uma manutenção do metodo de pontuação, mas aumentando um pouco a diferença entre uma vitória e o restante dos lugares pontuáveis.
      É sabido que a regra da pontuação é flutuante, que é alterada conforme a demanda. Isto se vê com a adesão à 10 pontos ali no início dos anos 90 sobrevalorizando a vitória (diferença de 4 pontos entre 1° e 2° lugares), e a valorização da reguraridade dando 8 pontos ao segundo lugar no início da década de 2000, tendo uma a ver com o contexto do Senna, e outra no contexto do Schumacher em suas épocas.
      Caso os dois próximos campeões tenham menos vitórias, adotarão algo semelhante às medalhas, e aí se vier um novo Schumacher com 17 vitórias em 20 corridas, voltarão a valorizar os regulares segundos, terceiros, quartos pra ver se voltemos a ter um campeonato que seja decidido nas proximidades do final da temporada.
      A foto que inicia o post é muito bonita, seria uma ótima pedida fazer uma foto com os 5 pilotos juntos, quase que um empréstimo oitentista da famosa Senna/Prost/Mansell/Piquet. hehehehehehhe

      • Mari Espada disse:

        Também adorei a foto, Laysson.
        Por isso ignorei as fotos que estavam na entrevista da ESPN e coloquei essa mesmo! =)

  2. Felipinho disse:

    Belíssima análise, feita por quem entende mesmo, e sem pachequismos…

    Segue os horários dos treinos e corrida, para irem se preparando para a sessão coruja (horário do Brasil):

    Treinos livres 1 quinta 22:00 hs
    Treinos livres 2 sexta 02:00 hs
    Treinos livres 3 sexta 23:00 hs
    Classificação Sábado 02:00 hs
    Corrida Domingo 03:00 hs

    • Mari Espada disse:

      Deve ser ótimo chegar nesse nível… onde se domina totalmente o assunto e não se deve nada para ninguém.
      É uma coisa para poucos, como o Sir Stirling Moss… afinal ele não deve ser “Sir” por acaso! =)

  3. Rodrigo Pedrosa disse:

    Interessante, falou meio que o que está aí para todos verem, quanto a valorizar a vitória é sempre bem vindo.

    • Mari Espada disse:

      Valorizar a vitória é muitíssimo bem vindo! Claro!
      Mas não se pode desvalorizar as demais posições… senão fica inviável a realização do esporte e da competição como conhecemos hoje, com tantas equipes e carros no grid.

    • Mari Espada disse:

      Então é difícil achar um equilíbrio entre o sistema de medalhas e a pontuação.
      Se bem que a pontuação atual já é bem melhor doque a dos anos anteriores, pois dá mais vantagem de pontos à vitória. Mas ainda assim continua existindo a possibilidade de administração dos pontos.
      Ou seja, é complicado solucionar esse problema e impulsionar as ultrapassagens.

  4. Anselmo Coyote disse:

    Extra! Extra! Extra!

    “Massa rejeita ser escudeiro eterno e diz: “Não sou o segundo Barrichello”
    Ah… meu Deus. Parece que estou ouvindo o Barriquelo falando. Que mico, meu Jesus cristinho.
    Por que no te callas, Massa?

    http://esporte.ig.com.br/grandepremio/formula1/2010/10/06/nao+sou+o+segundo+rubens+barrichello+da+ferrari+afirma+massa+9610909.html

    Abs.

    • Marcelo Brum disse:

      Esse é um daqueles casos em que a emenda sai pior do que o soneto. Os brasileiros podiam dormir sem essa! Fala sério, Massa!

      Quem foi que disse que “pior que tá, não fica”? Fica sim. Taí!

    • wilson disse:

      e depois é quem não torce pelo massa que é pessimista, que é duro, que é exagerado, que as coisas não são bem assim.

  5. Alex-Ctba disse:

    Muito bom o post Mari, relatando o q pensa esse grande nome da história da F1. Vem de encontro com o q temos analisado por aqui e fiquei feliz q tinha muitas passagens parecidas com o post q eu fiz sobre os cinco candidatos ao título.

    Quanto ao sistema de pontuação x medalhas, concordo com a análise do Laysson. A FIA vaiu adequando conforme a dinâmica de pilotos/equipes. Esta temporada estamos com um sistema bom, quase ideal. Falta ainda valorizar um pouquinho mais a vitória e se for atender a reivindicação dos fãs, dar 1 ponto pela pole, já q hj em dia, sem estratégia de combustível, a pole voltou a ser real. O Problema desse ponto extra pela pole, é no caso de um carro dominante como a Red Bull desse ano na classificação. Eu não daria um ponto pela pole, mas sim importaria da Indy 1 ponto extra para o piloto que liderasse o maior nº de voltas. Vettel por Exemplo no Baherein, faria 1 pontinho a mais, depois de perder potência e a liderança da corrida.

    • Mari Espada disse:

      Legal né? Li isso na ESPN e quis trazer para cá na hora! Pena que esse “na hora” levou a noite toda para traduzir decentemente… então foi postado só hoje!

      E concordo que a pontuação dessa temporada de 2010 está muito próxima do ideal. Mas deveria sim haver uma valorização um pouco maior da vitória, sem desmerecer as demais posições.
      Essa idéia de 1 ponto pela pole, ou pela liderança, ou então pela volta mais rápida parece boa, mas só poderemos saber se forem colocadas em prática.

  6. “Nós todos vimos pilotos correndo por pontos e não por vitórias ao longo dos anos, e na minha opinião isso não é automobilismo.”

    O Stirling Moss ainda ainda chateado por ter acabado o campeonato do mundo 4 vezes em 2º lugar , senão não dizia isto . Mais pontos = Campeão , simples . Só em 88 é que isto não aconteceu , em que valia o numero de vitorias e não de pontos .

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