Chove chuva…

Publicado: 01/11/2010 por Mari Espada em Artigos, Formula1
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Após ver o GP da Coréia sob muita chuva, alguns carros rodando e muitos pilotos reclamando que a corrida não poderia continuar naquelas condições; foi inevitável para mim lembrar de Ayrton Senna, e pensar que com ele a história seria diferente…

É indiscutível que Ayrton era um grande piloto, mas caso as nuvens resolvessem derramar suas lágrimas de emoção, então sua maestria obtinha o palco perfeito para se apresentar.

Por isso selecionei dois trechos excepcionais do livro de Christopher Hilton para compartilhar com todos vocês, e alguns vídeos para ilustrá-los. Espero que gostem.

Mônaco 1984

“Em termos puramente de pilotagem, colocar carros de F1 – com suas incríveis potência e velocidade – em ruas estreitas com subidas, descidas e curvas fechadas, é verdadeiramente radical. O limite normal de velocidade é de 50 km/h, mas Prost conseguiu a pole no ano anterior a 140 km/h – 10 km/h a mais do que o limite de qualquer rodovia francesa.

Esse é um aspecto. O outro é que as estreitas ruas de Mônaco são protegidas por guard rails Armco, que podem transformar um carro de corrida em sucata. O piloto deve se aproximar o máximo possível, até mesmo raspar neles, em busca do melhor traçado para conseguir fazer a volta mais rápida – sem, de fato, bater neles. Sobreviver em Mônaco é uma arte; não se deve se preocupar em fazer bonito lá.

Agora imagine quando a pista está molhada, e a aderência é reduzida e você não consegue ver aonde está indo, porque os enormes pneus do carro da frente estão erguendo um verdadeiro tsunami.

Então imagine que você nunca esteve lá.

Senna largou na sétima fila e, então, começou a chover, forte o bastante para alagar a pista. A equipe McLaren tinha prioridade nos pneus Michelin, e a Toleman, como equipe pequena e nova cliente da Michelin, deveria utilizar pneus com um ano de uso. Hawkridge conta com certo alívio que, é claro, a Michelin não tinha pneus de chuva de um ano de idade e teve de fornecer à Toleman os mesmos pneus que tinha dado à McLaren.

Três carros não completaram a primeira volta, e, em um prelúdio do que estaria por vir, Senna viu o Lotus de Elio De Angelis oscilando. Ele o ultrapassou rapidamente e conquistou o nono lugar. Na frente, Prost liderava, seguido do britânico Nigel Mansell. Senna duelou com um francês afável, Jacques Laffite, na terceira volta e estava, então, perseguindo as posições dos sete carros à sua frente.

Como Senna conseguia controlar seu raciocínio, mesmo com aquela chuva perigosa e as ruas íngremes e estreitas, ele foi capaz de usar o botão de controle de turbo e descobriu que quanto mais o desativava, melhor conseguia dominar o carro. Aumentos repentinos de potência era o que ele menos precisava. No final, conforme contou a um amigo depois da corrida, ele estava correndo sem pressão no turbo.

Na nona volta, Senna estava em sexto e marcava pontos, cortesia de um piloto que rodou na pista. Na décima segunda volta, ele ultrapassou Keke Rosberg, campeão mundial de 1982 pela Williams, e, na décima quarta, passou o mau-humorado francês René Arnoux, cuja Ferrari tinah um pequeno problema na ignição. Mansell, que havia ultrapassado Prost, bateu, deixando o francês em primeiro, seguido de Lauda e de Senna em terceiro.

Essa ordem continuou por mais três voltas. Na décima oitava, surgindo do torniquete de uma curva chamada Rascasse e entrando na reta final, Senna estava sobre Lauda. Na reta, virou rapidamente o Toleman para a esquerda e passou sob uma parede d’água – completamente às cegas –, de forma que, quando chegaram à curva fechada no final da reta, Senna estava com vantagem sobre Lauda, que, sendo um veterano prudente, escolheu não enfrenta-lo.

“Tive de deixar Senna passar.”

Prost estava mais de meio minuto à frente, mas não gostava de pilotar na chuva, ainda mais em uma tempestade como aquela. No espaço de onze voltas, Senna diminuiu a diferença para 7,4 segundos, antes da corrida ser interrompida – uma decisão controversa, uma vez que o tempo não piorara. (Na verdade, Senna virtualmente superou Prost e achou que venceria, mas, de acordo com as regras da F1, sempre que uma corrida é interrompida, registram-se as posições do final da volta anterior.)”

Os melhores momentos da corrida:

Mau-humor no podium pela interrupção da corrida e breve entrevista:

Interlagos 1991

“Senna venceu no Brasil em 1991, algo que não havia feito antes. Tinha dado aos seus conterrâneos grandes momentos, mas na televisão e em lugares distantes. Agora, ele conquistou a pole “motivado em grande parte pelo desejo de ter sucesso na frente do meu público. A torcida que eles fizeram foi inspiradora. Quando você está saindo dos boxes, um bilhão de coisas passa por sua mente e por seu corpo. É um processo surpreendentemente rápido, tudo direcionado a uma única meta, tudo focado em um pequeno ponto. É algo tão distante que os seus olhos não conseguem ver. Tudo está, realmente, na sua mente”.

Ele liderou, seguido de Mansell, e “foi um tremendo ritmo desde o começo da corrida, com Mansell pressionando tanto que eu tinha de ir mais rapidamente. Não queria ir tão rápido àquela altura, mas tive de fazer isso para me manter dois segundos à frente dele”.

Mansell foi para os boxes com problemas na caixa de câmbio, mas voltou e, na quadragésima quinta volta, já estava forçando Senna novamente. “Ele começou a pressionar de maneira incrível, e eu tive de lidar com isso, sem supervalorizar nem menosprezar o que estava fazendo.” Senna ganhou alguma distância, mas perdeu a quarta marcha. “Para compensar isso, tive de colocar tanta força que quase rodei duas vezes”.

Mansell teve um pneu furado e a caixa de câmbio de Senna ficou “completamente louca” à medida que se aproximavam da volta final. “Pensei numa solução durante uma volta inteira e decidi deixar na sexta marcha e pilotar de um jeito completamente diferente. Nas curvas de alta velocidade, não ia tão mal, mas, nas de velocidades média e baixa, era um desastre.”

Aqui, na estranha eloquência das estatísticas, está a obra de um mestre:

Volta 64 – 1:24,887

Volta 65 – 1:28,305 (a caixa de câmbio enlouqueceu)

Volta 66 – 1:28,621 (pensando no que fazer)

Volta 67 – 1:25,899 (em sexta marcha)

Volta 68 – 1:25,781 (já com o novo ritmo estabelecido)

Patrese, agora em segundo, percebeu que Senna estava com problemas, mas também tinha problemas em sua caixa de câmbio; então começou a chover, o que afastou a possibilidade de qualquer tentativa final de ultrapassagem, apesar de Senna observar constantemente seus espelhos retrovisores para “ver onde Patrese estava. Eu não conseguia enxerga-lo”. Ele ficou pensando: vai dar tudo certo.”

Última volta com apenas a sexta marcha e pista molhada:

Dores musculares no podium:

Entrevista após a corrida:

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comentários
  1. Alex-Ctba disse:

    Maravilhoso Mari e muito oportuno, agora q a memória do tri-campeão está mais viva do q nunca com o lançamento do documentário sobre Senna perto de estreiar em circuito nacional. A revista veja dessa semana tem uma matéria sobre essa épica corrida de Mônaco de 84.

    Valeu pela sua matéria, mais completa do q a da Veja!

  2. Ronei Leonel Junior disse:

    Mari Parabéns. Gostei muito do post. Só não posso deixar passar uma coisa em branco. O galvão continua o mesmo, huauahuahauhauhauha

    • Mari Espada disse:

      Ai, nem me fale no Galvão…
      Aposto que se ele fosse “menos intenso” em sua narração das vitórias do Senna, esse grande piloto teria conquistado mais fãs ainda. Pois muita gente abomina o “produto de marketing Senna” por aversão à esse mala puxa-saco. Afinal, é inevitável fazer a relação entre os dois.
      Beijos!

  3. Allan Wiese disse:

    Muito bom Mari!
    Sempre bom relembrar os grandes feitos do Senna…

  4. Fernando Kesnault disse:

    ótima prova em Talladega da Sprint Cup, estratégias, drafts(empurra o carro da frente p/alcançar liderança), troca de líderes com mais de 25 pilotos, sempre duas a tres filas de carros, diferença de 2seg. do 1º para o 33º colocado, para variar, um show de transmissão da TV (com a qual os responsaveis pela f-1 deveriam tomar umas boas aulas de aprendizagem), não se perde nenhum lance da prova…enfim torna a f-1 ridícula, esdruxula, amadora, com pilotos cheios de “não me toques”; a f-1 é como a máfia italiana, cheia de complôs, conchavos e segredos sujos em decisões de campeonatos, com pistas chatas, corridas entediantes e com pilotos em sua maioria ridículos e nem deveriam estar na GP2.

  5. wilson disse:

    é vero capo kesnault

  6. Marcelo Brum disse:

    Maravilhosas lembranças, Mari. Esse era, REALMENTE, O CARA. Mas que regulamento mais ridículo que não dava aos pilotos as mesmas condições nas pistas – ora, enquanto uns corriam com pneus novos, outros tinham de se contentar com pneus usados. E, com tudo isso, foi em uma equipe intermediária que o grande Senna começou a chamar a atenção. E olha que ele dividia as pistas com grandes craques do automobilismo: Rosberg, Mansell, Prost, e Lauda. Demais!
    Belas e emocionantes lembranças na semana do GP do Brasil! Parabéns!!!

    • Fernando Kesnault disse:

      O Senna era um baita piloto mas era sujo, egoista, falso e mesquinho, o detalhe é que morreu e então eternizaram algo que ele nunca foi.

      • Marcelo Brum disse:

        Essa foi forte, hei Kesnault. Então você está insinuando que se o Schummy morresse, também seria um ídolo do tamanho do nosso incomparável Senna? Sugiro que você vá atrás de vídeos do Senna no youtube e também do Schummy. Depois tire suas próprias conclusões…

        Abçs!

      • Fernando Kesnault disse:

        Marcelo ambos são iguais no comportamento em pista, algo bem diferente qdo. se esta frente a frente, são simpaticos qdo. vê uma camera por perto e qdo. não tem te ignora, vai por mim, farinha do mesmo saco….

      • Marcelo Brum disse:

        Eu sei que a sua tese faz sentido, Kesnault. Outro dia mesmo aqui no blog, falávamos do fascínio que Gilles Villeneuve exerceu e exerce, mesmo tendo tido uma curta carreira. Mas, quando analisamos um piloto, como Senna, analisamos o seu desempenho nas pistas. É claro que ele teve passagens nada honrosas, como decidir um título jogando o carro pra cima do Prost. Mas a maior parte que ficou, foi a de um vencedor. Isso você não pode negar.

        Abçs!

      • Fernando Kesnault disse:

        Marcelo não estou a brigar contigo, só estou a falar o que penso dele que era um baita piloto, supercompetitivo…mas era sujo, egoista e até mesmmo mau caráter na pista e não media esforços e qualquer tentativa para ser o primeiro mesmo que tirasse o adversário da pista em todas as ocasiões possiveis. Quanto ao Villeneuve, eu o vi correr (puxa, como o tempo passa) e me lembrava aquele tipo de piloto que curto como o Ronnie Peterson, vinha de lado, do jeito que dava, mas era limpo, respeitava o colega de profissão.

    • Marcelo Brum disse:

      Kesnault, não precisa se desculpar. É o seu ponto de vista. Eu só quis dar o meu contraponto. Ah, bela lembrança quanto ao ronnie.

    • Mari Espada disse:

      Realmente Marcelo, essa lembrança de Interlagos’91 é inspiradora para o próximo final de semana.
      Beijos!

  7. Marcelo Brum disse:

    Sabem, olhar videos antigos de F1 dá uma certa frustração… Porque constatamos o quanto a F1 atual é burocrática e chata. E o detalhe, com muitíssmo mais itens de segurança do que antigamente. Hoje existe a tal célula de sobrevivência. Antigamente, os pilotos corriam sérios riscos de terem as pernas amputadas em um acidente.
    Na Coréia foi um absurdo: quase um terço da prova disputada sob safety car. Estamos caminhando para o dia em que os pilotos serão obrigados a manterem as posições de classificação…

    Abçs!

    • Allan Wiese disse:

      A última prova do ano tem tudo para ser assim Marcelo, ao menos entre os ponteiros e salvo algum problema mecânico…

  8. Anselmo Coyote disse:

    Belo post, Mari.
    Abs.

    PS. difícil desvincular a imagem do Senna do Galvão… rsrs.

  9. Mari Espada disse:

    Meninos, obrigada por apreciarem o post… fico muito feliz!!!

    Mas na verdade o mérito não é meu, pois eu apenas tive a idéia de transcrever os trechos excepcionais da vida do nosso Senna retratados nas páginas do Hilton. Eu apenas tive a sensibilidade de pensar nisso enquanto lia o livro, o resto foi por conta dos dois (piloto e autor). =)

    Então eu aceito o elogio sobre o timing do artigo em relação ao documentário do Senna e em relação ao GP do Brasil no próximo fim de semana. Afinal essa foi realmente a minha intenção com esse post, assim como a referência à chuva da Coréia e a atitude dos pilotos atuais em comparação ao Senna.

    E os vídeos também são uma seleção minha para ilustrar o texto… espero que tenham feito justiça à maravilhosa história. Claro, sem considerar a narração freneticamente insuportável do Galvão, né? Hehehe. =P

    Enfim, é sempre bom relembrar… dá uma saudade gostosa! Uma emoção!

    E por falar em emoção… acabei de chegar do salão do automóvel (estou exausta!), mas quero compartilhar que eu estive frente à Lotus do Senna!!! Meu coração até disparou!!! =D

    Beijos! Até mais.

  10. Bom pessoal segue um link com um quiz da globo sobre capacetes. achei interessante, então estou compartilhando.

    http://globoesporte.globo.com/motor/formula-1/noticia/2010/11/capacetepops-teste-os-seus-conhecimentos-sobre-formula-1.html

    Como quando se trata de f1 sou apenas um mero mortal, só acertei onze: Prost, Hamilton, Senna, Barrica, Buton, Massa, Weber, Piquet, Patrese (graças ao artigo do Claudemir), Schumacher, Senna (bruno) e Alonso.

    • Poxa, acertei 25, mas aquele 5º capacete me tirou do sério, era um piloto da Williams, mas não sei qual….

      Será que estou errado?

      Me ajudem!!!!!

      • Vitor, o de Recife disse:

        Marcelo e Claudemir, com certeza é o do Alain Prost, 1993.

    • Marcelo Brum disse:

      Eu fiz 13! Acho que o 5o. é do Alain Prost!

    • Mari Espada disse:

      Achei ótimo o teste! Mas eu já falei que sou péssima de memória, né? =/

    • Vitor, o de Recife disse:

      Consegui 29 (26 na primeira tentativa). Empaquei no nº 1, 4 (sei que já vi, mas não consigo lembrar de jeito nenhum); o 8 tinha certezaa que era do Stefan Bellof mas o site dizia que estava incorreto. Como não ia dormir sem saber disso, fui conferir no Google imagens e descobri que era o Tyerry Boutsen, cujo capacete é uma homenagem ao alemão, assim como o de Alesi é para o De Angelis.

      Me ajudem a dormir: quel é o 1º e o 4º?

  11. Rodrigo Pedrosa disse:

    Belo post Mari.

    Boas lembranças de Senna e a chuva.

    Acertei 26.

    Não lembro de quem é o 1, 6, 11, 14, 22 e o 28.

  12. Will disse:

    O bom do Quiz eram os capacetes com nomes e apelidos dos pilotos..facilitou geral!

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