Pilotando uma Aeronave

Publicado: 05/02/2011 por Alexandre Pires em Opinião
Tags:, , , , , , , ,

No último dia de testes em Valência, a FIA se mostrou aberta a fazer ajustes na regra das asas traseiras reguláveis. O que vocês acham disso? O meu pitaco está logo mais abaixo.
A FIA propõe uma ‘zona de ultrapassagem’ onde o piloto poderia mudar o ângulo da asa de seu carro.
A discussão atual é de que um trecho de 600 metros seria suficiente para incrementar o espetáculo com mais ultrapassagens.
Por outro lado, há aqueles que não gostam do artificialismo da ‘medida’, nos dois sentidos.

MENOS COMANDO(S)
Num primeiro momento, a reação dos comentaristas tem sido de colocar várias reticências, chegando ao limite de dizer que o piloto deveria comandar apenas os pedais de aceleração e frenagem, as borboletas de câmbio e o volante dos carros.
Surgiu até a discussão em torno do excesso de botões dos atuais volantes.
Acho este caminho de discussão muito conservador. Já houve um tempo em que os pilotos tinham de se preocupar com embreagens e alavancas de câmbio na lateral da boléia além dos comandos básicos.
Aquela alavanca dourada da McLaren do Senna deve ter ficado na memória de muita gente.

MAIS COMANDO(S)
Minha opinião é que quanto mais comando o piloto tiver do carro melhor é o espetáculo porque isto traz o imponderável. Mais variáveis é igual a mais variação dos resultados.
Gosto da idéia do piloto controlar as áreas sensíveis do carro. Antigamente, a aderência mecânica do carro era o diferencial, daí saber acelerar, trocar bem marchas, esterçar eram operações que definiam quem era bom e quem era ruim.
Hoje, a aderência aerodinâmica se tornou primordial (também). Então por que não entregar o controle desta área para os pilotos?
Todos sabem que na Fórmula 1 não há bônus sem ônus. Um piloto que se arriscar no ajuste aerodinâmico poderá perder o controle do carro. Do mesmo modo que um piloto que entregar a potência extra do KERS (acumulador cinético) num momento desfavorável.
Para aumentar a diversão e o espetáculo, é necessário aumentar as chances de erro e, logo, as de acerto.

USO RESTRITO
Na verdade, não sei nem se seria necessário criar restrições de uso para o KERS e para a asa traseira. Acho um falso pressuposto.
Mas já que isto está em pauta, acho que definir trechos apequena o espetáculo. Seria mais interessante deixar para o piloto escolher onde ele se daria melhor com mais ou menos aderência aerodinâmica.
Sem este fator humano não há o imponderável. Alguém poderia escolher uma curva ‘x’ para isto e outro uma entrada de reta ‘y’. Muito mais divertido.
Se for para ter restrições que sejam de tempo de uso, como a do KERS. Cada piloto teria tantos segundos de uso do comando da asa traseira.
Minha ressalva é que o conceito do KERS de tantos segundos por volta me pareceu algo um pouco sem graça.
Talvez tantos segundos por corrida seja algo mais desafiante. Alguns pilotos poderiam gastar seu tempo no início, outros no final.
Acho também que a regulagem da asa dianteira poderia ter sido mantida. A chance de combinações inusitadas aumentaria, logo, se multiplicariam acertos e desacertos.
Imaginem um carro com o máximo de potência extra e sem pressão aerodinâmica em ambos os aerofólios. Seria divertido ver um carro assim entrar numa curva. Isto põe o piloto no limite.

USO IRRESTRITO
Agora, trechos e tempos pré-determinados serão sempre artificiais. Talvez a FIA devesse pensar em algo mais crítico e físico. Por exemplo, um capacitor de energia (de carga lenta?) alimentado pelo KERS e que fosse a fonte de energia do próprio KERS e também das asas móveis, estas consumiriam um ‘x’ de energia quando fora do ajuste padrão (algo que um simples acionamento e permanência da asa por motor elétrico garantiria; basta imaginar a energia necessária para manter uma asa no ângulo máximo por alguns segundos).
Ficaria por conta do piloto administrar este ‘boost’ como melhor o remediasse.
O que poderia ser complementado com uma regra que condicionasse a ativação do KERS apenas após o carro atingir a sétima marcha ou um giro específico, ou ambos. Ou seja, seria um prêmio para os pilotos mais agressivos.  Ou ainda com uma regra que só permitisse a recarga da bateria após a carga ter sido zerada e o uso da energia acumulada só após a carga máxima ter sido atingida. Isto deixaria tudo mais imprevisível ao obrigar o piloto a fazer escolhas.
E nós, o público, teríamos de poder ver como está a ‘pilha’ do carro. Isto seria bem próximo à definição de um tempo máximo de uso para os aparatos. Mas seria mais interessante e os sistemas poderiam falhar, do mesmo modo como uma caixa de câmbio emperra ou quebra.
Por ora, sou da posição que os pilotos podem e devem comandar o carro mecanicamente (i.e. sua interação com a pista) e aerodinamicamente (i.e. sua interação com o ar), já que hoje o fórmula um se tornou uma verdadeira aeronave terrestre.

comentários
  1. Will disse:

    Caraca…muito interessante. Vou aguardar a temporada para avaliar. Gostei muito do uso do Kers em 2009.

  2. Lucas Domakoski disse:

    Particularmente, achei essas restrições da FIA ao uso das asas uma imensa bobagem. Vai dar confusão, isso sim.
    Acho que seria muito melhor liberar o uso das asas nas retas dos circuitos, ou talvez liberar para que o piloto pudesse usar onde quisesse mas em determinado número por volta, assim como o kers.

  3. Anselmo Coyote disse:

    A FIA vai marcar a pista com faixas contínuas e pontilhadas!!!

  4. Marcus Zangari disse:

    Pior que vai ser mais ou menos por ai Anselmo!

  5. Anselmo Coyote disse:

    Normatizações exageradas

    Não gosto dessas interferências.
    Pra mim piloto tem que usar as mãos p/dirigir e trocar marchas (de vez em qdo mostrar o dedo médio tbm, como o Petrov fez p/Alonso ano passado), pés para pisar os pedais e olhos para ver o próprio carro, a pista, os outros carros etc (e a gostosa da arquibancada, óbvio, pois sem isso nada valeria a pena). Nada mais.
    O resto é coisa de tecnicismo de nerd pun, digo, corneteiro.
    Abs.

    • espero que cheguem em algo interessante, mas a proposta atual é muito fraca
      mas como já deu pra perceber ali no artigo, acho que os pilotos podem mais que só fazer o que nós fazemos nos nossos carros de passeio

      quando a telemetria controlava a tração, a trasmissão e tudo que era eletro-mecânico, muitos de nós reclamaram dizendo que o piloto não pilotava mais
      mas e agora que a aerodinâmica se tornou tão, tão fundamental, não seria razoável dizermos que o piloto não pilota mais novamente?
      agora é um engenheiro que traça todo o comportamento aerodinâmico do carro
      será que vettel é tão superior aos outros pra fazer curvas como ele fez?
      mas quando teve de escolher a melhor maneira de atacar button, perdeu o controle do carro totalmente, queria ver mais isto, mais decisão do piloto sobre a aerodinâmica
      prefiro que o piloto pilote isto também

  6. Anselmo Coyote disse:

    Alexandre,

    Sendo curto e grosso:

    Se vc acha que pode fazer no seu carro o que o Nelson Piquet, ou o Emerson ou o Lauda faziam nos F1 certamente vai achar que num gramado com uma bola também pode fazer o que Pelé, Zico e Romário faziam e que o Messi faz.

    O mesmo se aplica aos romances que escreveria com a caneta do Jorge Amado ou com o piano do Tom Jobim.

    Não é por aí mesmo.

    Abs.

  7. Anselmo Coyote disse:

    Alexandre, (agora mais light…rsrs)

    A coisa vai continuar a mesma, pois as dificuldades são as mesmas para todos. Então a questão é preferência. Porém, a minha preferência é pela coisa mais tosca, de braço, de malandragem, de sangue frio, de instinto animal… algo mais compreensível e palatável às pessoas comuns.

    Esse tecnicismo exacerbado talvez torne a F1 coisa de uma meia dúzia de gatos pingados aficcionados, desestimulando a aproximação de pessoas que gostam realmente de automobilismo.

    A coisa está ficando sem sentido. Criam-se mecanismos para o carro andar mais e ao mesmo tempo normatizam seu uso para que o mecanismo não possa ser usado. Não vejo sentido nisso.

    Mas, já que a coisa está assim, então torço para que a mudança seja para melhor. Por isso estou aguardando mineiramente.

    Abs.

    • Anselmo,

      você havia dito assim: ‘Pra mim piloto tem que usar as mãos p/dirigir e trocar marchas […], pés para pisar os pedais e olhos para ver o próprio carro, a pista, os outros carros etc […]. Nada mais.’

      eu disse que isto é ‘o que nós fazemos nos nossos carros de passeio’.

      tá claro que me referia às operações de que você falou, não a competência de cada um em fazer isto, muito menos a minha.

      enfim, continuo achando que um piloto pode fazer mais que controlar esta ‘mecânica’ básica do carro, ele também pode controlar sua ‘aerodinâmica’ básica, hoje mais importante do que em qualquer outro momento.

      e como ontem haviam os gênios que faziam proezas acelerando onde outros freavam, freando bem depois dos outros, tangenciando tangências desconhecidas, trocando marchas de modo sem igual e preciso, esterçando o carro em linhas mais arriscadas que outras;
      por isso tudo, acho que hoje os pilotos tinham de ter a chance de arriscar retas sem nenhuma ‘asa’, curvas com ‘muita’ ou quase sem nenhuma, e coisas assim.

  8. Anselmo Coyote disse:

    Alexandre,

    Eu nem tenho como dizer que vc está errado. Se vc estiver por pensar assim eu também estarei por pensar o contrário, pois, afinal estamos expondo nossas preferências pessoais sobre como deve ser a competição.

    Eu prefiro uma disputa menos tecnologica. Só isso.

    Também acho que o piloto pode fazer muito mais – até assoviar e chupar cana se for o caso -, mas, para quê? Isso não faz a disputa ser melhor, haver mais ultrapassagens, pegas etc.

    Ao contrário disso, a F1 é a categoria que está se tornando mais chata e tediosa. Suas corridas tem sido verdadeiras procissões em fila indiana. Aquilo que o Kobayashi fez no Japão em 2010 deveria ser a regra e não a exceção.

    Assista a uma corrida de GP2 ou Fórmula Indy e você vai ver a diferença. Agora, compare a tecnologia dos carros dessas categorias com a tecnologia dos carros da F1. Você vai constatar que tecnologia faz o carro ficar mais rápido e seguro, o que é excelente. O acidente que aconteceu com o Kubica não teria consequência alguma se fosse num F1. Porém, esse “andar de bicicleta e mascar chicletes” (coisa que loira não consegue fazer) não melhora em absolutamente nada a disputa, sob o ponto de vista do torcedor.

    Abs.

    • Mari Espada disse:

      Coyote,

      Deve haver um equilíbrio no número de ultrapassagens… pois tanto a procissão da F1 no Bahrein quanto a zona típica da Indy são entediantes!
      Ultrapassar demais torna o ato banal. E enjoa do mesmo jeito.

      Eu não sei como resolver o problema, mas com certeza os extremos não são os ideais… nem muita, nem pouca tecnologia.
      Mas isso é sarna pro Bernie se coçar. O dia que o salário dele estiver na minha conta, eu tento achar uma solução… hehehe! =P

      Beijos!!!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s